27.12.17

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A mãe Lisa enviou-nos este email, e pediu que o partilhassemos.

Obrigada Mãe Lisa pelas palavras.

Um beijinho do tamanho do mundo

 

"Quero... em meu nome e do meu marido agradecer o trabalho que a vossa Associação faz.... É de facto muito importante para nós... pais de colo vazio... Sentirmos que alguém entende a nossa dor... que mais alguém para além de nós sabe que existiu uma vida e que se perdeu....

A minha gratidão a todos os que comentaram e que de alguma forma me confortaram com as suas histórias... o meu abraço apertadinho para todas as mães, que nesta altura... tal como eu... sofrem ....

Um beijinho muito grande a todas as mães que fazem parte desta dor...

Um BOM NATAL... E que o ano 2018 nos traga a Serenidade necessária para aceitar o que nunca vamos puder mudar...

 

Mãe Lisa"

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20.12.17

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Tenho escrito um pouco, porque percebi que me ajuda. Hoje escrevo porque estou de novo grávida, muito apreensiva e assustada. Partilho um pouco da minha história dos últimos meses com vocês. 
 

29 de Julho de 2017

Faz hoje uma semana que saí do hospital de mãos vazias, de útero vazio... pela terceira vez. Mas desta vez é muito pior. A dor é muito maior. Eu vi a minha menina, era linda, tão pequenina, tinha 16 semanas, e pode parecer absurdo, mas parecia o pai a dormir. Nunca mais vou esquecer aquele rostinho. Estou triste e desiludida comigo porque não a abracei e agora já é tarde, não sei onde ela está, dizem que o corpo foi para autópsia. Naquela hora não temos cabeça para pensar em nada. Sinto que arrancaram um pedaço de mim e sei que nunca mais serei a mesma pessoa. Havia uma alegria em mim que era expontânea e agora desapareceu. Tento agarrar-me ao que a minha vida tinha e ainda tem de positivo: a minha filha, o meu marido, o meu trabalho, o projeto da casa nova, porque a vida não parou. Mas tudo o que é bom, o que acontece de positivo tem um sabor estranho, amargo...

1 Setembro de 2017

As dores fortes e as hemorragias ainda não pararam. A ecografia revela restos placentários e é marcada uma curetagem. Entrei no hospital de manhã e esperei até às 15.00h para entrar para o bloco. Não me lembro de mais nada a partir do momento que me injectaram a anestesia. Por volta das 19.00h estou de regresso ao quarto. A um quarto exactamente igual ao que fiquei no dia em que morreu e nasceu o meu anjinho. Não consigo dormir ali. Começo a sentir pânico e não consigo estar deitada, sentada ou de pé! Uma sensação de claustrofobia insuportável... não me lembro de alguma vez me sentir tão agitada. Chamo a enfermeira e exijo sair naquele momento. Sei que é uma loucura e corro enormes riscos, é contra as indicações médicas, mas saio mesmo, acho que perceberam que não me iam segurar ali contra a minha vontade. Chamo o meu marido para me ir buscar. Assino um termo de responsabilidade e eram quase 21.00h quando saio e meia zombie desço a via rápida do hospital de Braga ao encontro do meu marido... preciso de andar e sentir o ar da rua. Que alívio !

Também o meu marido nesse dia tinha estado no hospital. Estranhas dores de cabeça têm-no incomodado, os TAC’s e ressonâncias não revelam nada, os médicos dizem que deve ser stress. Não sabia que lhe tinham dado tranquilizantes. Sente-se sonolento e sem condições para conduzir. Ligo para todos os hotéis de Braga que conheço e estão esgotados porque é período de férias. Vejo-me sem alternativas e decido conduzir até casa. Peço a Deus que me guie nesta hora, porque também me sinto em péssimas condições para levar o carro por estradas apertadas e cheias de curvas, mas felizmente chegamos a casa sem contratempos. 

 

8 de Setembro de 2017

Vamos para fora do País durante uma semana. A ideia é nestas mini-férias tentarmos recuperar um pouco deste último golpe e ganhar forças e ânimo para prosseguir. Acho que temos feito tudo o que é humanamente possível para fortalecer a nossa relação. É juntos que temos de continuar. Sei que não tivemos culpa, embora nos sintamos constantemente culpados. Assinar um documento que termina com a vida da nossa bebé porque tinha Trissomia 21 e complicações cardíacas é algo que nunca iremos aceitar. É uma pena muito pesada e uma dor angustiante. Ninguém devia ter que passar por isto.

 

19 de Setembro de 2017

Voltámos de férias, regressamos aos nossos trabalhos e retomamos o projecto da casa que estamos a reconstruir. É algo que nos une e motiva. Também nos distrai, tanta agitação e problemas para resolver acabam por nos manter anestesiados e assim adormecemos a dor. Preferimos andar cansados e com a mente ocupada. Evitamos pensar ou falar no assunto.

 

4 de novembro de 2017

Existe sempre algo que nos arranca deste entorpecimento e hoje foi o dia. 

Somos convidados para um jantar de colegas de faculdade do meu marido. Um casal tem uma menina de quase 2 anos e o outro casal um rapaz de 7, muito amorosos e lindíssimos.

O jantar decorre animado, fala-se do passado, dos professores, das profissões e depois começam os relatos sobre os filhos... as gravidezes, os partos, as experiências de cada um deles com os seus bebés, até à altura em que alguém diz para o meu marido: “... tens que tentar pá! Não demores muito que já estás mais que na idade... isto dá trabalho mas é maravilhoso. Se pudesse tinha 3 ou 4!”

Sinto que levei um murro no estômago... esforço-me por ficar normal, mas tenho vontade de gritar que também nós temos 3 filhos (o Afonso, o Henrique e a Maria) só que são anjos e nunca poderemos sentir essas maravilhas com eles! 

Mas controlo-me e penso que tenho que agir com naturalidade para ninguém perceber o desconforto. É a primeira vez que os vejo, não exponho os meus sentimentos assim e não vou expor o meu marido, que está apático e sem reação. Silêncio absoluto da nossa parte. Acho que não dissemos uma sílaba durante todo o tempo em que a conversa prossegue neste tema, até uma das senhoras dizer que conhece um casal com vários filhos que adoptou uma criança com síndrome de down. O outro casal elogia a coragem e um deles diz com frieza: “eu se soubesse que ia ter um filho assim deficiente acabava logo com tudo! Desculpem lá mas é o que sinto!”

Outro murro, levanto-me com a desculpa de ir à casa de banho, sei que vai ser difícil conter as lágrimas e grito em silêncio: QUE NUNCA SAIBAS, QUE NUNCA SINTAS!!! 

 

6 Dezembro de 2017

Já estamos na casa nova. Depois de tantos meses de obras e complicações, chegou finalmente o dia. Parece ironia, mas a menstruação está atrasada quase uma semana e eu costumo ser certinha como um relógio suíço. Faço um teste: resultado positivo. 

Não festejamos como era costume e não fazemos planos. Negámos a nós próprios o direito de sentir qualquer felicidade, qualquer emoção. Depois de tudo o que aconteceu sinto uma angústia enorme só de pensar que posso ter que passar por tudo outra vez. Na última consulta de planeamento familiar a médica disse exactamente isso: “Se voltarem a engravidar, têm que estar preparados para mais más notícias.” O pior ou o melhor (nem sei) é que agora estamos, e o medo, esta nuvem negra, não nos abandona. O quartinho de bebé que projectámos está ali, mesmo em frente ao meu. Enchi-o de tralhas, evito imaginá-lo decorado com um bercinho entre as duas janelas como era meu sonho.

Este nó no estômago não passa e agora só peço que Deus nos ajude e nos dê forças!

 

Susana 



 
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19.12.17

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Há casais que durante o ano iniciam o sonho da maternidade, que engravidam e vivem ansiosamente a chegada daquele filho. Mas nem sempre a gravidez corre da melhor forma e perdem aquele bebé. Como vivem estes casais o Natal, quando supostamente aquele Natal seria o primeiro com o seu filho, como vivem estes pais os Natais seguintes, sabendo que a cada ano que passa haveriam novas experiências, novas vivências como pais. E sabemos que um Natal com uma criança é sempre um Natal diferente.
É importante ser mais tolerante, lidar com aquilo que não deu certo e se superar, aceitar e aprender com o caminho que temos percorrido. Todos têm limitações e qualidades, é preciso focar naquilo que “têm de bom”, e aquilo que pode ser melhorado. É importante se valorizar e ver as próprias conquistas e superações..
Ter esperança que no ano seguinte será melhor traz motivação, traz a oportunidade de consertar os erros e reorganizar a vida de outra forma, mas lembre-se de não se cobrar demais, seja realista, um passo de cada vez.
Não existem pessoas e famílias perfeitas. Nem todos estão alegres nesta época do ano, a felicidade não é obrigatória
E há mesas que têm um lugar vazio… há mesas de Natal que têm um lugar de alguém que ninguém viu, mas que alguém amou… e ainda ama…. Há mesas de Natal que são feitas com colos vazios!
A equipa da Associação Projecto Artémis deseja a todos, em especial aos pais de colo vazio um Santo e Feliz Natal

Associação Projecto Artémis

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11.12.17

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"O meu nome é Lisa... tenho 38 anos... o Gustavo seria o meu 3º Filho.... e foi... Só não foi da forma prevista...

Não foi uma gravidez planeada,(usava DIU) contudo foi uma excelente notícia... IA SER MÃE DE NOVO!!!

Estava feliz... o meu marido estava feliz... Os manos estavam expectantes.... Perfeito a vinda do meu/nosso Gustavo....

Até ao dia em que tudo mudou... e iria mudar tudo para sempre....

Ao rastreio das 12 semanas, veio uma alteração no resultado para "uma possível trissomia".... Ecografias, amniocentese, mais analises... Afinal tudo ok!! Excelente ... Primeira barreira ultrapassada... afinal o meu bebé estava perfeito ....

Apartir das 20 semanas... começar a preparar o enxoval do meu anjo... Que delícia mesmo...

22 semanas..... Eco Morfológica... acompanhada da sogra e do meu canito (ansioso por ver o mano na barriga da mãe)... entro no consultório ás 14.30... saio ás 16.40 .... surgiram dúvidas... a Drª pediu-me que saísse e fosse comer algo doce e depois voltasse... desta feita sozinha... Lembro-me de olhar para a minha sogra... fez-se silêncio... senti um aperto... algo não estaria bem....

17h ... volto a entrar... sozinha.... eu e o meu medo.... o que teria o meu Gustavo???!!!! o meu filho???!!!

Para meu espanto, a Drª  chama a minha Obstetra que se encontrava de serviço... ( Drª Sonia Siopa a quem tanto devo e agradeço... fez tudo o que pode ....)

Começam a sussurrar... a minha médica aperta-me a mão... eu só chorava... em desespero pois já tinha percebido que o que quer fosse que se passasse era grave.... Perguntei : " Drª por favor diga-me o que tem o meu filho.....?? "

Lisa... ouço numa voz trémula, o meu nome.... " o bebé não tem a mãozinha direita... e tem um derrame à volta do coração.... Vou encaminhá-la de imediato para Coimbra... Maternidade Bissaya Barreto.... " o meu mundo ruiu... fiquei sem ar... sem chão... sem nada... Recordo-me que só conseguia pensar em fugir dali depressa... Eu não podia estar a ouvir aquilo... era tudo um equívoco.... o meu filho não tinha nada... não pode ser....

Quando saí a minha sogra percebeu que algo grave se passava.... eu só chorava.... tremia.... enfim.... não estava em mim....

Fui para Coimbra passados 5 dias....

Entretanto já com quase 24 semanas.... o meu filho mexia tanto... reagia tanto à mãe... ao pai....

Eu só pensava não pode ser... a Drª enganou-se....

Em Coimbra, no DPN (Diagnóstico Pré Natal), fui recebida por médicos excepcionais... e por uma Enfª em particular que trago sempre... para sempre no meu coração... Foi o meu anjo neste processo todo tão doloroso... Enfª Cristina.... A minha eterna gratidão....

Exames mais exames... Confirma-se que algo não estaria bem com o meu Gustavo....

Mas o quê???!!!

E aqui é que começa o pior dos pesadelos.... Ouvir falar na IMG....   Baseada em probabilidades... O tempo escasseia... Não há tempo para esperar muito mais... por mais resultados... mais exames....

A única certeza que havia era que de facto não tinha a mãozinha.... nada mais.... tudo o resto foram suposições... Fortes probabilidades... ok... reconheço... mas... contudo... probabilidades não são certezas...

E para mim a única certeza que tinha é que.... grávida de 26 semanas eu não queria ficar sem o meu filho... eu não queria ter que estar a passar tudo aquilo.

Entre dúvidas e pressões.... No dia 12/4/2017... às 17h .... Nasce o meu Gustavo.... Perdi o meu filho.....

Parto induzido.... de uma violência emocional sem igual.... Mas ressalvo... tive... e tenho... UM SUPER MARIDÃO!!!

Sempre comigo.... Sempre ao meu lado.... Assistiu a tudo....   sempre...

A ele a minha eterna gratidão... o meu eterno amor.....

Tratei de tudo com ele... A roupinha... O funeral.... tudo tudo....

Dia 14/4/2017... por volta do 12h... à porta do Cemitério.... vejo chegar o meu menino.... naquela caixinha branca... Meu Filho...

Que dor imensa... Anti Natura... completamente....

Volvidos quase 7 meses..... Tudo mudou... A dor acompanha-me ... Não consigo fazer o meu luto... Estou a destruir a minha relação... com o meu marido... com os filhos que tenho... mas acima de tudo comigo....

Culpo-me porque assinei aqueles papéis... culpo-me por ter aberto mão do meu filho... não ter lutado mais... DESISTI!!!!

Todos os dias.... A ti meu amor.... A MÃE PEDE PERDÃO!!!

Amo te com toda a minha força... mas não te amei o suficiente para não te perder....

Perdoa-me meu filho....

 

Mãe Lisa"

link do postPor projectoartemis, às 11:07  comentar

6.12.17

AAEAAQAAAAAAAAZKAAAAJGQ1ODY0MzI5LWExOGMtNDYxYS1hMj

Diariamente ouvimos falar na humanização dos serviços de saúde, contudo e infelizmente não é isso que se verifica.

Não é suposto haverem juízos de valor por parte de qualquer técnico ou médico na área da saúde, não é suposto os utentes sairem de uma consulta a sentirem-se culpados, criticados ou humilhados.

Este é apenas um dos muitos relatos que nos chegam diariamente.

"Dia 23 de Novembro 2017

1ª consulta de PMA (Procriação Medicamente Assistida)– MAC (Maternidade Alfredo da Costa)

- Marcada para as 10:30, por questões de trânsito e estacionamento só conseguimos entrar na MAC pelas 10:40.

- O Serviço de PMA encontra-se em obras, pelo telefone quando marcaram a consulta, não nos informaram, perdemos ainda mais tempo, admissão no rés-do-chão, a porta está fechada só tem um papel à porta a informar que ali são as instalações provisórias de PMA. Não há sistemas de senhas, é um local de passagem, não há bancos de espera, não se percebe quem está para PMA ou para outra coisa qualquer.

- A porta é de molas abre para os 2 lados, de forma a perceber se estava no sítio correto, bati e espreitei, logo uma administrativa “tem que aguardar lá fora e esperar a vez”… Voltei para fora, qual vez? Não há senhas… Não há filas… Só pessoas espalhadas pelo átrio… fiquei a observar, qual experimento social… Tive que andar a perguntar às pessoas que estavam pelo átrio se estavam para o mesmo.

- Chegou a minha vez, e iniciei o processo com a administrativa. Perguntou pelo meu marido, disse-lhe que me tinha deixado, uma vez que já estávamos atrasados e assim eu poderia adiantar a parte da admissão… “trouxe as copias dos cartões de cidadão?”, não me tinham informado que era para levar… mas prontamente a senhora se ofereceu para fotocopiar e continuamos com a parte mais burocrática, praticamente com a senhora a clicar no teclado do computador e eu a olhar, mas até aqui tudo “normal” passados 2 minutos, levanta os olhos do teclado e exclama com arrogância “Mas o marido ainda está a estacionar?”, eu nem sabia o que havia de responder… tinham passado 2 minutos que estava sentada à frente dela, não mexi no telemóvel sequer, como sabia eu se ainda estava a estacionar? E mesmo que já tivesse estacionado e mesmo que já estivesse no átrio, como sabia ele onde eu estava e se podia entrar? Tal como eu duvidei quando cheguei?... Mandou-me sair e quando o marido chegasse para informar… Entretanto ele chegou e tive que aguardar que as pessoas que entretanto estavam a ser atendidas que saíssem para voltar a entrar e foi então que uma senhora auxiliar muito simpática (por incrível que pareça foi das profissionais mais competentes (dentro da sua competência) que encontrei nesse dia) nos acompanhou ao primeiro andar, onde efetivamente seria a tão ansiada consulta. Quando chegamos o corredor estava praticamente cheio de casais. Fomos o último casal a ser atendido (de todos os que vimos à espera) posso dizer que saímos da MAC quase às duas da tarde… Mas não nos vimos no direito de achar estranho porque efetivamente chegamos ligeiramente atrasados e ficamos para o fim da lista.

- Quando a doutora nos chamou, não gostei da postura dela, sempre a murmurar reclamações face ao funcionamento da instituição (penso que se estaria a desculpar de alguma forma a sua má disposição, ou justificar os atrasos), postura que achamos muito pouco profissional e ética, em momento algum nos pediu desculpa pelo funcionamento, pelo atraso, até se podia “apoiar” na desculpa das obras, mas nem isso.

Mas até aqui, apesar de não gostarmos de algumas coisas, estamos no SNS, um serviço tendencionalmente gratuito, e que todo o cidadão sabe que de alguma forma alguns pormenores fogem ao controlo e à decisão dos profissionais que todos os dias lá trabalham… Mas o pior estava para vir, obras e mau funcionamento do sistema à parte, a senhora doutora poderia balancear todos esses pontos negativos vividos até ao momento e terminar a consulta com chave de ouro.

Consultas de PMA, na minha perspetiva, são consultas que de alguma forma requerem alguma sensibilidade dos profissionais que lá trabalham, muitas vezes os casais chegam fragilizados, ansiosos, com uma mão cheia de esperanças.

Resumo da consulta: colheita de dados, aparentemente para uma avaliação inicial/construção de história reprodutiva… Parecia que estávamos em frente a uma máquina, “profissão, “idade” (quando dissemos as idades 30 e 31 fez-nos um olhar fulminante, presumo que nos achasse novos, não sei, para mim a linguagem corporal e facial disse tudo), “altura”, “peso”, “menstruação” (menstruação? eu sabia o que ela queria perguntar, era a idade com que tive a primeira menstruação, mas não perguntou, fazia só metade das perguntas… e ia respondendo e os nervos a começar a crescer dentro de mim), “já esteve grávida”, lá lhe respondi que sim, mas que tinha perdido, ela a escrever “ah, aborto espontâneo” e eu “não aborto retido” (não perguntou se essa gravidez tinha sido com o mesmo parceiro que tenho agora (podia não ser…).

Perguntou qual o nosso grupo sanguíneo, eu já estava nervosa, estava cansada porque tinha trabalhado no turno da noite, tive um lapso de memória, mas respondi O+, mas tenho aqui as análises que posso consultar… “Enfermeira e não sabe o grupo sanguíneo”? e com aquele olhar acusatório… Enfim…

Perguntou se tomávamos alguma medicação, eu disse que não, mas que o meu marido sim (Isotretioína – medicação para o acne)… Ela parou tudo e com ar arrogante e bruto e com um tom de voz acusatório disse que essa medicação causava aborto! “Então abortaram estão a tentar engravidar e tomam medicação dessa???” Senti-me culpada de uma coisa que não tenho culpa… Nesse momento ela pareceu que não quis ouvir mais nada do que tínhamos para dizer, explicamos que tínhamos falado com o dermatologista sobre esse assunto, ele disse que era seguro que a afetar poderia afetar o feto e o feto só estaria dentro da mulher, só a mulher não poderia tomar esse medicamento e que a bula também o confirmava… Na bula do medicamento, apenas existem advertências ao consumo por parte de mulheres e nunca de homens, e o meu marido também toma a dosagem mais reduzida possível. Ela não quis ouvir mais nada, não quis saber de dosagens nem a opinião do colega dela… e com ar arrogante diz que o medicamento afeta gametas e que o homem tinha gametas, eu disse-lhe que não, que afetava o feto e não gametas… O que eu fui fazer! “Atirou-se” a mim mais uma vez que como enfermeira deveria “saber” mais, e que nós fazíamos o que quiséssemos, mas que se ela pessoalmente estivesse na nossa situação não tomava medicação nenhuma, até porque “essa” medicação não era “importante” no sentido de ser vital presumo…

Não estou contra a opinião dela e conhecimento, estou contra a postura e forma como falou, senti-me ofendida, diminuída… Explicou de forma automática uma vez mais que tendo em conta os dados seríamos candidatos a inseminação artificial, e isso seria na melhor das hipóteses daqui a 6 meses, se não corresse bem seríamos propostos para FIV e a lista de espera para FIV era de no mínimo 1 ano, segundo ela esta informação era para nós saber com o que contar, deu-nos a prescrição para análises e espermograma (porque o espermograma que levamos era do laboratório do H. da Luz e ela não gostava dos espermogramas do H. Luz…) e levantou-se disse até à próxima consulta)… Mais nada…

Saímos… O meu marido foi a uma outra sala porque tinha um colega de trabalho a realizar uma manutenção a um equipamento (o meu marido é técnico de electromedicina, numa multinacional independente a instituições hospitalares, só fazem prestações de serviços…), e eu fiquei à espera, um pouco desviada já do gabinete médico… Entretanto a médica passa e viu-me ao longe e perguntou o que estava ali a fazer, porque não estava na consulta de enfermagem! Mas com um tom e um ar que eu era completamente irresponsável… Consulta de enfermagem? Qual consulta de enfermagem? Ninguém me disse que tinha mais alguma coisa para fazer… Fui à tal sala em que o meu marido estava e perguntei-lhe se a medica nos tinha dito para ir ter com a enfermeira (podia me ter escapado por algum motivo), ele também não ouviu nada nem sabia de nada… Nós é que teríamos que adivinhar (acredito que outros casais já saibam, mas nós foi a primeira vez…)… Estava com tantos mas tantos nervos, que não consegui falar na consulta de enfermagem, comecei logo a chorar compulsivamente, porque me tinha sentido verdadeiramente ofendida e diminuída… Aí a senhora enfermeira fechou a porta (sim, estava aberta…) e tentou acalmar-me e tentar perceber no que podia ajudar… Aparentemente entendeu e tentou amenizar a situação, mas ao mesmo tempo, quando lhe falei em apresentar queixa ela de alguma forma “incentivou” a que o fizesse, porque normalmente as pessoas que apresentam queixa não sabem usar as palavras e nós como casal “diferenciado” poderíamos fazer-nos ouvir de outra forma e a nossa queixa poder ajudar casais no futuro que passam pelo mesmo… E deu-nos o nome da médica, porque ela não se tinha apresentado na nossa consulta…

Resumo de sentimentos da 1ª consulta de PMA – MAC ofendida, diminuída, insignificante e humilhada, pela forma fria, desumana e mecanizada com que fomos atendidos."

Por motivos de proteção desta utente não a iremos identificar.

link do postPor projectoartemis, às 12:02  comentar

5.12.17

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 Aqui fica o link do programa "Juntos à tarde" na SIC onde se conversou sem tabus de perda gestacional

 

http://sic.sapo.pt/Programas/juntos-a-tarde/a-conversa/2017-11-30-A-Conversa-Sem-Tabus---Perda-Gestacional 

link do postPor projectoartemis, às 11:27  comentar

28.7.17

A Claúdia quis partilhar connosco a sua história, uma história de perda, mas que ao contrário de tantas foi vivenciada com dignidade, respeito e num ambiente acolhedor. Se minimiza a dor? Não, mas que ajuda em todo o processo de luto sem dúvida.

Obrigada Claúdia pela partilha.

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"Relato de um parto por Interrupção Médica da Gravidez (IMG)

Perder um filho (que ainda carregamos no ventre) com dignidade e num ambiente acolhedor não devia ser um luxo mas um direito de todas as mulheres.

O Rafael viveu apenas 14 semanas e 5 dias na minha barriga. Nasceu e morreu no dia 22/7/2017, às 18:20, depois de um parto induzido e respeitado que durou o tempo de que precisámos... exactamente 9 horas. Sem pressas. Sem comentários depreciativos. Sem atitudes agressivas. Seguindo o protocolo de IMG por indução. Sim, é possível isto tudo acontecer ao mesmo tempo.

Às 12 semanas, na ecografia morfológica, levantaram-se suspeitas de malformações muito graves que foram depois confirmadas numa ecografia às 13 semanas. O resultado da BVC que fiz foi positivo para Trissomia 13. O meu bebé não poderia sobreviver. Soube que carregava um menino - que tanto queríamos para ficarmos com o desejado casalinho - no dia em que tive a confirmação de que não poderia vê-lo crescer. Noutras circunstâncias teria ficado tão feliz por saber que eras um rapaz...

Desde a última consulta com a minha OB (Drª Patrícia Teixeira) até à IMG passaram apenas 3 dias. A minha despedida já vinha a acontecer há uns dias porque sabia que, mesmo que não se confirmasse a T13, o meu bebé não teria qualquer hipótese de sobreviver devido às malformações cerebrais e cardíacas tão severas que já eram visíveis. E era ainda tão pequenino...

Numa 4f à tarde fiquei a saber que iria iniciar o protocolo de IMG no dia seguinte de manhã, no Sams, com a toma de três comprimidos cuja função é terminar o processo hormonal que sustenta a gravidez. Nessa noite despedi-me do meu bebé pela última vez. Em família, demos-lhe o nome de um anjo - Rafael - porque é isso que ele será sempre para nós.

Escrevi-lhe uma carta já de madrugada e chorei até não ter mais forças. Precisava daquele momento. Aquela era a última noite que sabia ter dois corações a bater dentro de mim. Dormi terrivelmente mal e no dia seguinte acordei cedo para ir ao hospital tomar os tais comprimidos.

A enfermeira que me recebeu perguntou-me se sabia o que ia tomar. Disse-lhe que sim e ela confirmou. Suspirou antes de me estender os comprimidos.... estava visivelmente triste com a situação. Foi nesse instante que lhe perguntei se podia ouvir o coração do meu bebé uma última vez. Ela ficou surpreendida com aquele meu pedido mas não fez qualquer comentário, foi buscar um doppler portátil e tentou mas "às 14 semanas e com aquele aparelho era muito difícil conseguir ouvir o coração". Agradeci-lhe todo o esforço e tomei os comprimidos. Um de cada vez. Regressaria no sábado às 8h para ser internada e fazer nascer o meu bebé.

Na 5f o dia foi incrivelmente triste e solitário. Na 6f estive o dia todo com uns amigos e o dia passou depressa. Sentia-me cansada porque dormia mal há duas semanas... 3, 4 horas por noite... com despertares de madrugada e insónias terríveis...

Antes de sair com os avós, onde iria passar o fim de semana, a minha filha de 8 anos deu-me um beijinho na barriga e disse " Adeus mano!" Senti-a triste e fiquei de lágrimas nos olhos mas nenhuma de nós deixou cair uma única lágrima nesta despedida. Na verdade, já tínhamos feito a nossa despedida com uma pintura linda na minha barriga, já tínhamos chorado juntas, já tínhamos falado sobre a realidade que é a morte de alguns bebés tão pequeninos, já tínhamos escolhido o nome daquele que seria o nosso anjo para sempre... a despedida já vinha a acontecer há uma semana. Acho que foi esse tempo que nos preparou para o que se seguiria.

Na noite de 6f recebi a visita da minha segunda doula - a minha querida Rita Leite Prudente (que me foi indicada pela primeira doula, a minha querida Cristina Cardigo), que teve a coragem de me acompanhar e apoiar no dia da IMG. Falámos os três juntos pela primeira vez: eu, ela e o meu marido. Já tínhamos falado com a minha OB na possibilidade de vermos o nosso bebé, de podermos ficar com uma recordação dele mas não sabíamos bem o que conseguiríamos fazer, tendo em conta que iria nascer com 14 semanas e 5 dias de gestação. Já sabia como iria decorrer a indução e isso deixava-me mais tranquila, por isso a Rita falou connosco sobre o processo de luto, que normalmente é vivido de forma muito diferente pela mãe e pelo pai... quis ouvir as nossas expectativas e sentir a forma como estávamos a viver aquela perda. Havia respeito entre os dois, apesar das nossas diferenças e isso deixou-a mais tranquila. Falámos novamente sobre o processo fisiológico do parto e sobre o processo mental do parto.... sobre a minha entrega para que o Rafael pudesse nascer... e partir. E não é fácil fazer nascer um bebé que sabemos não podermos levar para casa nos braços. É tão difícil...

Nessa noite deitei-me cedo. Estava muito cansada e precisava de descansar para poder aguentar as exigências físicas e psicológicas do dia seguinte.

No sábado acordámos cedo. Às 8h entrámos no hospital, subimos ao piso 4 (maternidade) e esperámos pela Rita e pela troca de turno da equipa. A minha OB veio ter connosco assim que nos viu. A sua presença foi muito importante para mim naquele dia. Quando a Rita chegou ainda esperámos que a Enfermeira-chefe autorizasse a sua entrada - porque normalmente só entra para o internamento um acompanhante - mas não houve problema nenhum. Aliás, a Dra Patrícia já sabia que eu iria estar acompanhada por uma doula sem ter levantado qualquer problema nem perguntado por que razão queria eu uma doula na minha situação... O quarto que nos reservaram era o último do corredor. Havia obras nesse dia e aquele era o sítio mais sossegado... ainda assim só me lembro de ouvir barulho de manhã... Depois de vestir a bata branca, a minha médica foi buscar-me ao quarto para o início da indução: a introdução de umas laminárias no colo do útero para uma dilatação mecânica progressiva. As laminárias - já me tinha explicado e voltou a explicar - eram uma pauzinhos de algas que incham com o muco cervical e desta forma vão dilatando o colo do útero. Eram 9:30

Quando me deitei na marquesa as lágrimas escorreram-me sem que pudesse controlá-las. Ninguém me disse para não chorar, que ia passar... deixaram-me chorar. Afinal era normal. A introdução das laminárias não é um processo doloroso mas é o início do final de uma etapa muito dura: a perda física de um bebé que ainda se carrega no ventre... a minha médica foi muito cuidadosa e esforçou-se para não me provocar mais sofrimento. Estou-lhe tão grata por isso...

Senti logo uma pressão no colo do útero mas não era propriamente dor. Segui de cadeira de rodas para o quarto. A enfermeira pôs-me um catéter na mão (as minhas veias do antebraço desapareceram naquele instante e ela não teve outra opção) e mediu-me a tensão. O meu ritmo cardíaco estava tão acelerado que ela me ofereceu um calmante. Eu aceitei. Estava, de facto, muito nervosa! E com medo. Tinha tanto medo... nunca tinha passado por um parto vaginal... nunca tinha sentido contracções na minha primeira gravidez... a minha filha nasceu por cesariana, devido a complicações no final da gravidez sem que eu tivesse entrado em trabalho de parto sequer. Passar por um parto para fazer nascer um bebé que não tinha hipótese de sobreviver era verdadeiramente assustador. Não sabia como o meu corpo ia reagir à indução... não sabia como eu ia reagir à dor provocada pelas contracções e por toda a situação da interrupção daquela gravidez tão desejada...

Esperámos no quarto cerca de três horas. Falámos sobre as mais variadas coisas, ouvimos música calma, recebi umas massagens da Rita para estimular o útero, outras para relaxar, o meu marido teve tempo de ir almoçar e a Rita também. Eu tinha já algumas dores constantes e muita sede. Lembro-me de ter sempre os lábios secos e imensa sede, mesmo depois de beber chá...

Eram 13h quando me levaram para retirar as laminárias. A minha médica não me conseguiu rebentar o saco porque tinha o "colo comprido"... acho que isso teria acelerado o processo mas aconteceu o que tinha de acontecer. Em seguida deram-me um comprimido sublingual para iniciar as contrações (Cytotec) e a enfermeira sugeriu pôr-me um frasco de petidina no soro. Explicou que o início das contracções provocadas pela medicação poderia ser muito rápido e doloroso e a medicação iria permitir-me descansar um pouco... o dia poderia ser longo... e eu aceitei. Disse-me também que com uma dilatação de 3, 4 dedos o meu bebé já conseguiria descer porque às 14 semanas ainda era muito pequenino. A enfermeira-chefe era muito simpática e até nos contou por que razão tinha feito a especialidade em saúde materna e obstetrícia e a dificuldade que ela tinha em lidar com situações de morte... como aquela que estava ali a assistir. Quando ela saiu, aproveitámos todos o efeito da petidina, e descansámos por uma ou duas horas... eu na cama, o meu marido no sofá e a Rita na poltrona. Não cheguei a adormecer verdadeiramente mas pude fechar os olhos e descansar. Não sei dizer exactamente quanto tempo se passou. Sei que as dores aumentavam mas mantinham-se constante na zona do colo do útero.

Eram 16h quando a enfermeira se foi despedir de nós ao quarto: o turno dela tinha acabado e eu não estava a perceber por que é que ela se ia embora... mas já tinham passado 8 horas desde que tínhamos entrado no hospital!

O enfermeiro-chefe do segundo turno era igualmente amoroso. Deu-me mais dois comprimidos Cytotec e perguntou-me como estavam as dores. Eu já sentia muitas dores mas não conseguia identificar um pico e um tempo de intervalo entre um novo pico, como a Rita me tinha explicado que era normal sentir. Tanto ele como eu concordámos que não seria necessária uma analgesia epidural e fiquei com um frasquinho de paracetamol.

A partir daqui já não consigo fazer um relato preciso do que se passou... sei que a certa altura senti um líquido a escorrer por entre as pernas, a médica veio e disse que era o saco que tinha rebentado espontaneamente com as contracções. Fez-me um toque (sempre com o cuidado de me tapar as pernas porque com ela entravam no quarto 3 ou 4 enfermeiros e sem nunca me provocar dor) mas ainda não sentia nada... o enfermeiro perguntou-me se conseguia levantar-me e andar um pouco. Levantei-me mas andar custava-me muito. Aliás, estar em pé custava-me muito. O João já tinha enchido a nossa bola de pilates e eu já tinha experimentado sentar-me em cima dela mas não me sentia confortável. Experimentei então ficar de joelhos no chão apoiada na bola mas quando baixei a cabeça fiquei tão mal-disposta que precisei de ir vomitar. Acabei por vomitar os comprimidos que ainda tinha debaixo da língua... a médica trouxe mais um comprimido... não sabia ao certo que quantidade eu tinha tomado e que quantidade tinha vomitado... de novo senti vontade de vomitar mas desta vez consegui tirar o comprimido antes de chegar à casa de banho! Vomitei apenas chá e sumo... não tinha conseguido comer a gelatina que entretanto me tinham trazido. A partir daqui as contracções tornaram-se muito intensas e a posição em que me sentia mais confortável era ajoelhada no chão, com os braços apoiados na cama. Os estores estavam semi-fechados há algumas horas e acho que a música que tínhamso levado continuava a tocar... não tenho total consciência do que se passava à minha volta mas sei que estivemos sempre sozinhos. Os enfermeiros só vinham ao quarto quando os chamávamos ou quando eram horas de nova toma de comprimidos. Aquele foi um tempo muito nosso, onde a Rita me pôde fazer massagens com uns óleos muito elogiados por quem entrava no quarto, um tempo onde puder beber um chá que vim a descobrir ser apenas delicioso durante o trabalho de parto, um tempo onde me senti segura e pude concentrar-me em fazer nascer o meu bebé pequenino de forma respeitada e humanizada...

Não sei que horas eram quando senti vontade de fazer cocó e pedi para chamar a médica. Ela veio logo e lembro-me de ouvir uma enfermeira dizer: "Então está de cócoras no chão?" mas ninguém respondeu. Disse que estava com receio de ir à casa de banho e expulsar o meu bebé na sanita. A médica observou-me e disse para ir à vontade, que ainda não tinha descido, para não estar preocupada. Fui à casa de banho às escuras e por lá fiquei ainda algum tempo mesmo depois de ter acabado de fazer cocó. Estar sentada na sanita era uma posição confortável e aliviava-me as dores. Não sei quanto tempo ali fiquei mas sei que quando saí regressei à minha posição confortável de joelhos no chão e cabeça apoiada na cama, ali no cantinho de costas para o meu marido e para a Rita, que apenas observavam. Lembro-me de ter muito frio e de me cobrirem com um cobertor. Lembro-me de sentir dores nas ancas quando a Rita me tocava nessa zona e no cóccix. Não sei quanto tempo ali estive mas só voltei a levantar-me quando senti um novo líquido quente a escorrer pelas pernas abaixo. Espreitei e vi que já não era só líquido amniótico, também havia sangue. Disse que estava a sangrar e nesse instante as contracções pararam. De um momento para o outro deixara de sentir dores. Não senti vontade de fazer força porque o meu bebé era tão pequenino que não fazia pressão nenhuma para nascer... Acho que ouvi a Rita dizer: "O teu bebé já passou" ou terei imaginado? A percepção do que se passava à minha volta não era de total consciência, como diria a Rita, estava num estado de “consciência alterada” muito própria da fase activa do trabalho de parto...

A médica e cinco ou seis enfermeiros entraram apressados no quarto... o meu marido deve ter dito algo que os assustou, não sei... a médica pediu-me para subir para a cama mas eu não parava de pingar e estava a sujar tudo com sangue... examinou-me e disse que o bebé já estava no canal vaginal. Estava mesmo a sair... levaram-me para o bloco de partos. O meu marido quis seguir comigo. A Rita ficou no quarto - muito feliz, soube depois, porque o João decidiu na altura, de forma espontânea, acompanhar-me até ao nascimento do nosso bebé.

Já no bloco de partos senti muito frio e custou-me olhar para aquelas luzes brancas. O enfermeiro que me acompanhava confirmou que aquela sala era, de facto, muito fria. O anestesista chegou e apresentou-se, disse que me ia pôr-me a dormir por 10 minutos. Havia alguma pressa na sala e a última coisa que senti foi algo suave e quentinho sair de dentro de mim... era o meu bebé que tinha nascido... que tinha morrido...

As lágrimas voltaram a escorrer e adormeci de mão dada com o João. Eram 18:20.

Tínhamos combinado com a Dra Patrícia fazer a impressão dos pezinhos mas ela não conseguiu... o nosso bebé era ainda muito pequenino. O João contou-me depois que ela saiu do bloco de partos para ir buscar um papel do hospital e poder fazer a impressão do perfil do nosso bebé (o papel que tínhamos levado não era o melhor). Também tirou uma fotografia que enviou logo por email ao João. Eu dormia. Sei que me foi feita uma curetagem muito ligeira porque a placenta nasceu quase toda. Sei que os meus níveis de oxigénio baixaram durante a sedação e que o anestesista usou uma bomba manual para estabilizar os apitos do monitor, mas nada que tivesse sido preocupante.

Acordei com a voz do enfermeiro-chefe que chamava o meu nome. Disse-me que tinha corrido tudo bem e que estava na sala da enfermaria. Olhei para um relógio pendurado na parede: eram quase 19h e perguntei-lhe a que horas tinha nascido o meu bebé. Ele disse-me que tinha nascido às 18h30 (mas no relatório da alta médica a hora indicada é 18h20). Pedi-lhe para ver a caixinha onde tinham posto o bebé e ele foi buscá-la. Já tinha falado com a Drª Patrícia sobre esta possibilidade e na altura quis vê-lo. Acho que era importante para mim fechar este ciclo de nascimento e morte... Tenho também uma fotografia tirada pela médica que ainda não vi. E tenho muitas outras recordações bonitas de momentos de despedida que fomos criando em família ao longo da última semana de vida do meu bebé.

O João chegou pouco tempo depois à sala onde eu estava e contou-me o que se tinha passado no bloco de partos. Quando saiu, entrou a Rita para se despedir de mim. Sorria e ao mesmo tempo tinha os olhos cheios de lágrimas. Como eu a compreendi... Estar feliz e triste ao mesmo tempo é uma sensação muito estranha mas legitíma.

Saí do recobro e ainda jantei uma sopa, fruta e a gelatina que não tinha conseguido comer à tarde. Queria tanto comer aquela gelatina vermelha! Sentia-me bem fisicamente. Sem dores. A Drª Patrícia veio ver-me e dar-me alta. Fiquei tão feliz por poder ir dormir a casa, na minha cama! Esta tinha sido uma possibilidade discutida na consulta de 4f mas era apenas uma possibilidade e não uma garantia...

Eram 21h quando saí do hospital pelo meu próprio pé. Nada no meu corpo me doía. Apenas o coração estava pequenino e muito triste... sair de uma maternidade de braços vazios é um sentimento indescritível.

Nessa noite deitei-me perto da meia-noite e dormi bem. Há duas semanas que não conseguia dormir uma noite inteira... Acordei 12 horas depois. Um novo dia começava. O primeiro dia depois da morte do meu pequeno anjo Rafael. Muitos dias se seguirão porque a vida continua o seu percurso. Nada lá fora mudou. Tudo continua como estava. Só eu é que estou diferente. Agora sou uma mãe de colo vazio. Vou ter de curar as feridas que sangram no meu coração e aprender a viver com a perda de um filho muito desejado. Todos os dias. Resta-me a esperança de um dia poder ter outra oportunidade para conhecer este ser especial que viveu tão pouco tempo dentro de  mim...  A esse bebé que fez parte da minha vida por tão poucas semanas (12 das quais em que fui incrivelmente feliz) deixo as últimas palavras deste relato já demasiado comprido:

“Meu querido Rafael,
Espero um dia, algures, poder encontrar-te outra vez para podermos terminar a história que desta vez ficou inacabada. Espero um dia poder tocar-te, abraçar-te, sentir o cheiro da tua pele e do teu cabelo. Espero poder ver-te sorrir e poder acolher as tuas lágrimas. Espero um dia poder fazer parte da tua vida, seja de que maneira for. E dizer-te cara a cara que te amo. Que te amei desde o dia em que sonhei poder carregar-te dentro de mim, muito antes de saber que te carregava mesmo dentro de mim!
A tua mamã Cláudia.”

                              

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26.7.17

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"Braga, 20 de Julho de 2017

A sala é fria e cinzenta como o meu coração se encontra hoje. Depois de assinar a autorização para a IMG e respectivo internamento sou acompanhada para esta sala porque não consegui conter as lágrimas quando a médica me explicou como iria ser o processo de matar e expulsar do meu corpo a minha bebé de 14 semanas e 2 dias. De certeza sou um incómodo para as outras mães que estão na sala de espera, porque os meus olhos estão vermelhos e não consigo disfarçar esta tristeza, este vazio... Já sabia que ia ser algo assim frio e impessoal, desprovido de humanidade. É a terceira vez que fico sem um filho.

O hospital ainda não tem cama disponível portanto resta-me esperar pela eventual alta de outra paciente que já esteja "despachada". 

Desta vez a situação é consideravelmente pior que as anteriores porque a esperança era maior.

 

Braga, 13 de Agosto de 2016

Perdi o meu primeiro anjinho. Foi no dia anterior, no dia de aniversário da minha filha, que comecei a ter os primeiros sintomas, hemorragias e dores fortes... já sabia que algo não estava bem... a última ecografia mostrou que o saquinho não estava numa posição normal, mas nada era definitivo, ainda havia alguma esperança. Eram apenas 7 semanas e muito cedo para perceber o que se passava. Chorámos muito nesse dia, começamos a preparar-nos para o pior...  mas acho que nunca conseguimos estar preparados para perder um filho.

O nosso corpo não costuma enganar-nos e o cansaço extremo, o apetite e o peito inchado, todos aqueles sintomas normais de uma grávida estavam a desaparecer. Pedi a Deus para não marcar o aniversário da minha filha com a morte de outro filho. Acho que me ouviu porque só no dia seguinte perdi o meu bebé, depois de nessa noite nas urgências me terem dito que o processo abortivo estava em curso. Não havia nada a fazer. Fomos para casa destroçados.

 

Não sou pessoa para baixar os braços e disse ao meu marido que isto não acaba aqui. Vamos voltar a tentar... da próxima vez irá correr melhor, vais ver! 

 

A próxima vez chegou em Dezembro do mesmo ano. Fui mais comedida na notícia do teste positivo de gravidez. Desta vez apenas contei às pessoas mais próximas.

 Em Agosto não conseguimos dizer logo à família... demoramos mais de um mês a dizer que estava tudo terminado, sem grandes explicações sobre como tinha acontecido ou quando. A barriga não crescia, não havia hipótese de esconder a verdade durante mais tempo. Não queríamos olhares de pena sobre nós ou comentários dizendo que já passei da idade de ter filhos. Sim, porque com 43 anos estamos velhas para isso. Gravidez é para mulheres novas de 20 e 30 anos (!)

 

Braga, Janeiro de 2017

Esta segunda gravidez foi recebida com esperança e apreensão. A primeira ecografia feita às 6 semanas mostrou um embrião bem posicionado e com batimentos cardíacos. Ficamos felizes...fizemos planos. Acreditámos que o azar não ia bater à nossa porta duas vezes. Errado! Duas semanas depois os sintomas voltam a desaparecer. Menos 2,5 kg na balança... hemorragia, algo se passa outra vez. Vamos de imediato às urgências para ouvir o veredicto que nos arrasa: o embrião não apresenta batimentos cardíacos. O meu bebé morreu dentro de mim e eu não sei porquê. 

O meu marido chora como uma criança. Ele ainda não tem filhos e só estamos juntos há 4 anos e a cada insucesso vê as probabilidades de ser pai diminuirem. A minha filha tem 22 anos e é do meu primeiro casamento. Isto também não é justo para ele. 

Sou encaminhada para uma consulta. O corpo não expulsou o embrião, terá que ser provocado. Sou atendida por uma médica (Dra. E) de quem gostei muito pela frontalidade e meiguice com que nos atendeu... diz-me que é normal, que está sempre a acontecer. A idade é um risco acrescido, que normalmente tem a ver com anomalias cromossómicas e que é impossível evitar certos desfechos. Gostei dela. Disse-nos que nos ia ajudar a pôr uma criança no mundo e queria acompanhar tudo até ao parto. Dá-nos um abraço e mostra-se disponível para o que for preciso. No meio da tristeza e desilusão, quis dar-nos alguma esperança, algo inédito num Hospital público. Fomos para casa destroçados. Fiz a medicação para expulsão e depois de um dia e uma noite de inferno acabou tudo. 

 

Sesimbra, Abril de 2017

Voltámos aos treinos. Tiramos uns dias para descansar e namorar. Como das outras vezes somos metódicos com o calendário. Muitas contas aos dias da ovulação, alguma preparação com medicação e o optimismo da Dra E. com a seguinte receita: ácido fólico, iodo, cartia e progesterona + o resto (muito amor, claro). O meu marido disse com grande motivação que do "resto" tratava ele. 

 

Braga, 17 de Maio de 2017

Nova esperança. Vai ser desta: à terceira é de vez! 

Desta vez não compro babygrows e ficamos muito calados. Ainda sou mais reservada na notícia. Só mesmo quem me conhece muito bem se apercebe de algumas mudanças. 

Vou a uma nutricionista, quero alimentar-me bem, evitar muito aumento de peso porque já sou cheinha. Quero tudo o mais saudável possível. Deixo de fazer grandes viagens de carro, só pequenos percursos. Começo a delegar mais trabalho na equipa, evito ao máximo o stress. Desta vez tem que correr tudo bem... que não seja por minha culpa. 

Todos os dias olho para o peito, tento perceber se existe alguma diminuição dos sintomas de gravidez... nada... tudo normal. As semanas passam, ecografia Ok, estamos quase na 12. semana, quase a passar a fase perigosa. Escondo-me debaixo de roupa larga. Os meus colegas não podem perceber. A família do meu marido não sabe de nada, apenas a minha mãe, filha e irmã sabem. Evito aparecer... não quero perguntas. As calças já não apertam. É preciso comprar algo adequado... compro alguns pares com espaço para a barriga crescer. E já está a notar-se bem... estamos na 12. semana. Ecografia Ok. Tenho vontade de contar a toda a gente, mas contenho-me... ainda não. Quero ter certezas. É marcado o exame da translucência nucal.

 

Braga, 4 de Julho de 2017

O exame é feito por um médico conceituado num Hospital Privado. Dizem-me que é dos melhores. Peço-lhe: eu hoje só quero ouvir boas notícias Dr. já temos a nossa conta de más... 

Começa a examinar e diz que é um bebé muito mexido, teremos que andar atrás dele. Depois cala-se... silêncio total.  Silêncio desconfortável, premonitório. Diz-me: eu não tenho boas notícias para te dar Susana... eu penso: ele é brincalhão e vai dizer que não tem boas, tem excelentes! Depois pergunta: queres saber toda a verdade não é? A TN está muito aumentada, todos os marcadores estão contra ti. Não verifico osso nasal, TN 6,00 e as análises bioquímicas alteradas. O mais provável é ter alterações cromossomicas. Tenho quase a certeza! 

O meu mundo desaba, caiem as lágrimas pelo rosto do meu marido. Parece um rio... eu tento manter a calma. Pergunto-lhe: mas Dr. são meras probabilidades não são?? Tem a ver com o risco. Não é um diagnóstico, não é uma sentença pois não?? Ele responde: ainda não. 

Faço a biópsia das vilosidades. 

O resultado foi comunicado dias depois. Entrei para as piores estatísticas: Trissomia 21 ! 

 

Fui imediatamente ao encontro da Dra E. que me atendeu nas urgências. Mostrei-lhe o resultado e ouço-a dizer: merda, merda, que merda!!!! Vocês já mereciam outra coisa! Abraça-me dá um beijo e faz uma festa na cabeça do meu marido e diz: eles também sofrem... vou receitar-vos algo para ficarem mais calmos. Eu não quero nada. Não quero drogas para adormecer, nem para ultrapassar a dor. Será tudo a frio. 

 

A decisão é óbvia! Esta síndrome não é incompatível com a vida. Mas para os médicos não é razoável manter a gravidez, para nós também não. É uma decisão dos pais sim, mas para mim um egoísmo e uma irresponsabilidade saber que será uma criança que dependerá totalmente dos pais e de terceiros para toda a vida e ainda assim prosseguir. Como ficará a vida de um filho meu nessa condição se me acontecer alguma coisa ou ao pai? Como o trataria a sociedade? Os colegas, a família? Seria alvo de chacota na escola? Que problemas de saúde teria? Li muito sobre a síndrome de Down nestes últimos tempos. Percebi que estão à margem da sociedade, sem apoios e são descriminados. Os pais lutam como podem. São crianças com necessidades especiais mas sem tratamento especial. Tenho muito respeito por estes pais, mas não posso ser um deles. Muitos foram surpreendidos com este problema apenas no dia do nascimento porque os exames não foram além das ecografias normais. Porque o risco era demasiado pequeno, mas existia e foi negligenciado.

 

A minha menina não vai passar por isso... não vou permitir. Foi muito desejada mas prefiro abdicar dela a vê-la sofrer e a sofrer por ela.

 

Perdoa-me filha e que Deus me perdoe também. Serás mais uma estrelinha que te juntarás aos teus irmãos que já brilham no Céu ✨

 

Mãe Susana"

 

link do postPor projectoartemis, às 11:08  ver comentários (1) comentar

20.7.17

bebes.jpg

Esta imagem talvez seja a melhor forma de fazermos entender a diferença entre a vida in útero e fora do útero.

Para alguma pessoas a dificuldade em entender que um bebé dentro de uma barriga não é apenas o feto é imensa. Esta é uma forma que encontramos para talvez assim entenderem que dentro ou fora do útero um bebé é sempre um bebé.

Estas 4 imagens são de bebés (3 delas fetos para os clínicos), sendo que apenas 1 é fora do útero.

Expliquem-nos, se conseguirem o que é diferente. Para além do local onde se encontram, que diferenças vêem olhando para as imagens, que vos permita dizer com toda a convicção que apenas numa das imagens está um bebé.

 

 

link do postPor projectoartemis, às 14:55  comentar

Já conhece os serviços que a Associação Projecto Artémis tem disponíveis?

 

serviços A-PA.jpg

 

link do postPor projectoartemis, às 11:52  comentar


 
Espaço de partilha com objectivo de diminuir a falta de informação técnica e emocional a mulheres que vivenciam o luto da perda de um bebé ao longo da gravidez, bem como quebrar o Pacto de Silêncio resultante de todo esse processo de luto na Perda Gestacional.
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Este consultório online é um espaço onde pode colocar as suas dúvidas no âmbito da Perda Gestacional. Este Consultório tem um carácter informativo e o acompanhamento médico especializado por parte dos leitores não deve ser descuidado.

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projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

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Conselho Fiscal:
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