7.3.10


 


"O dia internacional da mulher é um dia em que prestamos homenagem às mulheres. É uma mensagem ao mundo todo. O dia da mulher é uma homenagem às mulheres que lutaram e ainda lutam pelos direitos igualitários. No decorrer da história da humanidade, muitas mulheres desejaram, buscaram, lutaram e em muitos casos foram punidas por desejarem igualdade. Às vezes a mulher foi ouvida, mas infelizmente, muitas vezes ela fora silenciada."
In uniflores.com


Vamos começar pelo fim desta citação - muitas vezes ela fora silenciada - a mim parece-me intemporal no que respeita à problemática da Perda Gestacional. O silêncio ou a impossibilidade de não nos permitirem falar é brutal nesta sociedade. Um exemplo disso, foi agora a tentativa de estarmos a realizar uma campanha de sensibilização em dois locais públicos, especificamente na cidade de Braga, que passo inclusive a citá-los: BragaParque e MinhoCenter.

Muito gentilmente afastaram-nos das suas imediações e o sentimento que me invade é parecido a algo como repugnância.
Infelizmente, quando me convenço que demos passos largos na sensibilização de algumas entidades cujo lema é "responsabilidade social", a realidade abana-me e ridiculariza todas as minhas maiores verdades. Continuamos na idade da pedra neste aspecto e um enorme muro de Berlim impera entre a nossa associação e o mundo lá fora.

Não nos querem por perto, fazem-me sentir como se fossemos autênticos transmissores de alguma epidemia e a sensação que me resta, cá dentro, é a de impotência... não gosto da palavra "armas", mas não as temos para combater este tipo de situações.

A associação apenas pretendia, neste dia, chegar a quem nos procura, mas apenas não sabe que existimos. Apenas queríamos um espaço para distribuir um sorriso e informar de que existimos, mas ... fomos silenciadas.

Assusta- me achar que podemos continuar a sê-lo ... assusta-me que esse quebrar do silêncio seja restrito a um espaço de aluguer, cujas multas se façam sentir sempre que o ultrapassamos.

E sinto muito ... muito mesmo, pela quantidade de mulheres que não vamos poder apoiar, só porque uma outra mulher/homem, cujo "poder" lhe permite dizer sim ou não, nos silencia e afasta de uma missão.

Às vezes, quando utilizo a palavra vergonha, para exprimir o que muitas mulheres sentem quando são albarroadas por este drama nas suas vidas, utilizo-a com tantas reservas que não imaginam ... mas se todas as outras pessoas a sentem, como é que nós a podemos evitar.
Hoje, sinto vergonha também ... por ser invadida por uma expressão de piedade, porque fico com a prespectiva de que estamos a mendigar algo que não merecemos, quando é um direito nosso - direito à expressão, à compreensão, à dignidade. Mas, em contrapartida, fazem-nos sentir como mendigas, perdidas num dram a, que se convencem que é nosso; ignorantes profundos que não vêm como podem ser apanhados, um dia, neste enredo.

É difícil este confronto, para mim é castrador, perceber como a Perda Gestacional é menosprezada, perceber como algumas entidades do nosso país simplesmente decidem quem é melhor estar ou não estar na vida dos cidadãos.

Continuamos acreditar em nós, apesar de pequenas porções de gente manifestar dúvidas; continuamos a ultrapassar barreiras, apesar de partículas sociais incutirem importância relativa ao que tentamos mudar; Continuamos a insistir em ter voz, apesar dos silêncios que os Outros permitem que cresçam.

Este ano, a associação não estará fisicamente numa campanha nacional, mas os nossos filhos também não crescem fisicamente num espaço material, mas não deixam de existir e mover atitudes.

Anseio pelo momento, pelo dia ou hora em que esse mundo lá fora, que sublinha uma realidade paralela à da per da Gestacional, se dê conta que afinal vivemos todos na mesma dimensão e que todas as pessoas anónimas, que se passeiam pelos locais, que hoje nos impediram de estar, possuem uma vida regida pelas mesmas circunstâncias e leis naturais e que mesmo conhecedores da máxima que diz: "não acontece só aos outros", a ignoram levianamente.

A todas as mulheres, especialmente às mulheres-mães de filhos que partiram cedo demais, a minha maior homenagem por tudo o que construiram em cima do destruido.

Manuela Pontes
Presidente APA
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projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

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