31.10.16

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 "A decisão de engravidar foi totalmente planeada… entre o nosso trabalho atarefado e tudo o que envolvia a rotina cá em casa foi decidido que a partir de Abril de 2013, as portas do nosso coração estariam abertas para receber o nosso primeiro filho. Porquê Abril? Porque em Janeiro de 2014 terminaria um trabalho que exigia bastante de mim e também porque não queria correr o risco de ter um filhote a nascer perto do Natal (nunca gostei da ideia de aniversários no mês de Dezembro). Assim, contados 9 meses, Abril parecia perfeito para conceber um bebé!

Sempre achei que engravidar era a coisa mais fácil do mundo! É pelo menos esta a ideia que a nossa sociedade transmite aos jovens… e de facto não há ninguém que não conheça casos de bebés não planeados… os chamados “descuidos”. Mas connosco não foi assim! Os meses passaram e não existiam menstruações, nem ovulações, nem ciclos! Nada de nada… e é então que procuramos ajuda médica e ficamos a saber que tenho SOP. Engravidar só mesmo com ajuda… medicações para aqui, injeções para acolá e passados vários meses a estimular ovulações, eis que finalmente chega um positivo! De facto, foi um positivão pois a ecografia mostrou-nos 3 feijõezinhos que iriam mudar a nossa vida para sempre!

A gravidez foi evoluindo e às 11 semanas sofro de uma apendicite aguda, a qual nos obrigou a passar por uma cirurgia. Recompostos do susto, e ainda no hospital, uma embolia pulmonar decide visitar-nos! Felizmente, ultrapassamos esta etapa juntos e contra todas as expectativas sobrevivemos os 4!

A partir daqui, todos os cuidados eram poucos… muito repouso, a barriga crescia de dia para dia e os meus bebés também! Estavam tão grandes que às 24 semanas o meu corpo não aguentou mais e fez com que os meus bebés nascessem! Sem aviso prévio, não dei conta que estava a entrar em trabalho de parto e só me apercebi que iam nascer quando vejo a levarem-me para o bloco de partos. Aí sim cai na realidade e percebi que o fim estava próximo! A Carolina nasceu e nem se quer foi preciso fazer força! Ouvi um choro tipo gatinho a miar que jamais irei esquecer mas nem se quer a vi pois tinham de leva-la para a neonatologia. Passado 7h o Salvador decide nascer e foi o parto mais traumático de todos. Saiu da posição em que estava e eu não conseguia fazer com que ele nascesse. Teve de ser puxado mas não sobreviveu à violência do parto. Perguntaram-me se o queria ver e em pânico por ter ainda a Maria Clara na barriga disse que não! Queria a todo o custo mante-la o máximo de tempo possível dentro de mim para ver se as medicações para a maturação dos pulmões faziam efeito e ver o Salvador morto não iria ajudar a manter-me calma. No entanto, só a consegui manter dentro de mim por mais 13h. Quando vi que ia nascer implorei por uma cesariana pois não teria forças para passar por um 3º parto, ainda para mais porque o anterior tinha terminado muito mal. Disseram-me que não iriam fazer cesariana mas que estavam ali para me ajudar e que eu ia conseguir. E de facto consegui. A Maria Clara nasceu e seguiu diretamente para a neonatologia. E também eu fui levada para a enfermaria. Felizmente, tiveram o bom senso de não me colocar junto com as outras mães e seus bebés, e colocaram-me na enfermaria de obstetrícia. A noite passou e eu não consegui fechar os olhos. Queria ir ver as minhas meninas e ter a certeza que estavam bem, já que não podia fazer mais nada pelo menino. Assim que amanheceu ouvi passos que iam diretos ao meu quarto e quando olhei para o rosto daquelas pessoas percebi que não traziam boas notícias. A Maria Clara só tinha sobrevivido 9h e já não estava entre nós. Mais uma vez me perguntaram se queria vê-la, e estupidamente disse que não. Se não tinha visto o Salvador então também não iria vê-la! Não podia tratar os meus filhso de maneira diferente! A minha cabeça estava a mil e só descansei quando pude ver a Carolina. No entanto, quando entrei na neonatologia foi um choque pois embora já tivesse visto uma foto dela que o papá tinha tirado no dia anterior, não tinha noção que era tão pequenina. Tinha apenas 680g e cabia nas minhas mãos.

Passei 3 longos dias internada, onde podia visitar a minha pequenina sempre que quisesse. Mas eu só queria vir para casa. Achava que em casa, junto das minhas coisas e dos meus, que iria ser mais fácil de suportar tudo o que estava a viver. Mas estava tão enganada! Quando finalmente entrei em casa, sem barriga e sem bebés, cai na realidade e percebi que nunca mais nada seria igual.

A partir daqui, todos os dias íamos visitar a nossa pequenina e passado 1 semana colocaram-na nas minhas mãos dentro da incubadora. Parecia estar a evoluir bem embora toda a equipa fosse muito contida, tínhamos alguma esperança que tudo terminasse bem. No entanto, passado 2 dias percebemos que algo está errado. Mal entrámos na sala, já estava uma médica para falar connosco. Tinham detectado que a Carolina estava a perder sangue e era muito provável que se tratasse de uma hemorragia cerebral. No dia seguinte, o panorama estava pior e para além da hemorragia, a Carolina tinha também uma infeção nos intestinos e estava a ficar com a barriga negra. A médica disse então, estas palavras que jamais esquecerei: “esta situação não é compatível com a vida. Percebeu Mãe?”. Ainda hoje (passado 2 anos e uns meses) estas palavras fazem-me engolir em seco. Claramente tínhamos chegado ao fim da linha e o nosso sonho terminava ali. No dia seguinte, regressámos ao hospital e já não ouvi os aparelhos ligados à Carolina a fazerem o barulho do costume! Pensei: "já se foi e nem nos despedimos dela". Mas estava errada. Eles simplesmente tinham retirado o som dos equipamentos pois já não havia muito a fazer por ela. Disseram-nos que o fim estava muito próximo e que se quiséssemos poderíamos dar-lhe colo, pois podiam tira-la da incubadora. E assim foi! Esteve no meu colo não sei bem precisar o tempo, pois para mim ele parou! Pude ver todos os seus pormenores que nunca me tinha sido possível ver. Pude dar-lhe todo o amor possível, pude beija-la e pude despedir-me dela para sempre. Quando achei que era tempo de nos separarmos, assim o fiz. Entreguei-a aos cuidados das enfermeiras que garantiram que ela não iria sofrer pois estava medicada e vim embora pois não queria assistir à sua partida. Passado 1h ligaram-me a dizer que tudo tinha acabado.

Seguiu-se um mês terrível onde nada fazia sentido na minha vida. Não queria sair de casa e ter de me cruzar com as pessoas. Não me apetecia falar com ninguém nem fazer nada. Passei um mês inteiro a chorar e a reviver todo o pesadelo pelo qual passei. Uns dias revoltada, outros dias nostálgica, outro dias nem sei bem como. Até que passado um mês, e com a ajuda do meu companheiro de batalhas, decidi que tinha de sair do buraco onde me tinha enfiado. A vida tinha terminado para eles, mas por algum motivo eu tinha sobrevivido. Nada mais seria igual, mas tínhamos de andar para a frente. Uns dias melhores e outros piores. E assim foi. De facto, “nunca sabemos a força que temos, até que a única alternativa é ser forte”.

Decidimos que tínhamos de voltar a tentar outro bebé, pois embora ele não fosse substituir os 3 que perdemos, pelo menos iria dar um novo significado à nossa vida. Passado 5 meses da nossa perda, engravidei espontaneamente e entrei em 2015 com um bebé já na barriga. Uma gravidez onde não foi preciso recorrer a tratamentos mas que foi vivida com muito receio. Felizmente tudo correu bem e o meu rapazão veio ao mundo a 12.09.2015, devolvendo a alegria às nossas vidas.

Embora, me faltem 3 pedaços de mim, aprendi a viver com essa ausência e a amar com um céu de distância!

Obrigada Projecto Artémis pela dedicação a esta causa  e um abracinho apertado a todas as famílias que viram os seus bebés partirem cedo demais. 3 beijos do tamanho do mundo para os meus pequeninos.

Mamã Vânia"

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projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

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