28.7.17

A Claúdia quis partilhar connosco a sua história, uma história de perda, mas que ao contrário de tantas foi vivenciada com dignidade, respeito e num ambiente acolhedor. Se minimiza a dor? Não, mas que ajuda em todo o processo de luto sem dúvida.

Obrigada Claúdia pela partilha.

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"Relato de um parto por Interrupção Médica da Gravidez (IMG)

Perder um filho (que ainda carregamos no ventre) com dignidade e num ambiente acolhedor não devia ser um luxo mas um direito de todas as mulheres.

O Rafael viveu apenas 14 semanas e 5 dias na minha barriga. Nasceu e morreu no dia 22/7/2017, às 18:20, depois de um parto induzido e respeitado que durou o tempo de que precisámos... exactamente 9 horas. Sem pressas. Sem comentários depreciativos. Sem atitudes agressivas. Seguindo o protocolo de IMG por indução. Sim, é possível isto tudo acontecer ao mesmo tempo.

Às 12 semanas, na ecografia morfológica, levantaram-se suspeitas de malformações muito graves que foram depois confirmadas numa ecografia às 13 semanas. O resultado da BVC que fiz foi positivo para Trissomia 13. O meu bebé não poderia sobreviver. Soube que carregava um menino - que tanto queríamos para ficarmos com o desejado casalinho - no dia em que tive a confirmação de que não poderia vê-lo crescer. Noutras circunstâncias teria ficado tão feliz por saber que eras um rapaz...

Desde a última consulta com a minha OB (Drª Patrícia Teixeira) até à IMG passaram apenas 3 dias. A minha despedida já vinha a acontecer há uns dias porque sabia que, mesmo que não se confirmasse a T13, o meu bebé não teria qualquer hipótese de sobreviver devido às malformações cerebrais e cardíacas tão severas que já eram visíveis. E era ainda tão pequenino...

Numa 4f à tarde fiquei a saber que iria iniciar o protocolo de IMG no dia seguinte de manhã, no Sams, com a toma de três comprimidos cuja função é terminar o processo hormonal que sustenta a gravidez. Nessa noite despedi-me do meu bebé pela última vez. Em família, demos-lhe o nome de um anjo - Rafael - porque é isso que ele será sempre para nós.

Escrevi-lhe uma carta já de madrugada e chorei até não ter mais forças. Precisava daquele momento. Aquela era a última noite que sabia ter dois corações a bater dentro de mim. Dormi terrivelmente mal e no dia seguinte acordei cedo para ir ao hospital tomar os tais comprimidos.

A enfermeira que me recebeu perguntou-me se sabia o que ia tomar. Disse-lhe que sim e ela confirmou. Suspirou antes de me estender os comprimidos.... estava visivelmente triste com a situação. Foi nesse instante que lhe perguntei se podia ouvir o coração do meu bebé uma última vez. Ela ficou surpreendida com aquele meu pedido mas não fez qualquer comentário, foi buscar um doppler portátil e tentou mas "às 14 semanas e com aquele aparelho era muito difícil conseguir ouvir o coração". Agradeci-lhe todo o esforço e tomei os comprimidos. Um de cada vez. Regressaria no sábado às 8h para ser internada e fazer nascer o meu bebé.

Na 5f o dia foi incrivelmente triste e solitário. Na 6f estive o dia todo com uns amigos e o dia passou depressa. Sentia-me cansada porque dormia mal há duas semanas... 3, 4 horas por noite... com despertares de madrugada e insónias terríveis...

Antes de sair com os avós, onde iria passar o fim de semana, a minha filha de 8 anos deu-me um beijinho na barriga e disse " Adeus mano!" Senti-a triste e fiquei de lágrimas nos olhos mas nenhuma de nós deixou cair uma única lágrima nesta despedida. Na verdade, já tínhamos feito a nossa despedida com uma pintura linda na minha barriga, já tínhamos chorado juntas, já tínhamos falado sobre a realidade que é a morte de alguns bebés tão pequeninos, já tínhamos escolhido o nome daquele que seria o nosso anjo para sempre... a despedida já vinha a acontecer há uma semana. Acho que foi esse tempo que nos preparou para o que se seguiria.

Na noite de 6f recebi a visita da minha segunda doula - a minha querida Rita Leite Prudente (que me foi indicada pela primeira doula, a minha querida Cristina Cardigo), que teve a coragem de me acompanhar e apoiar no dia da IMG. Falámos os três juntos pela primeira vez: eu, ela e o meu marido. Já tínhamos falado com a minha OB na possibilidade de vermos o nosso bebé, de podermos ficar com uma recordação dele mas não sabíamos bem o que conseguiríamos fazer, tendo em conta que iria nascer com 14 semanas e 5 dias de gestação. Já sabia como iria decorrer a indução e isso deixava-me mais tranquila, por isso a Rita falou connosco sobre o processo de luto, que normalmente é vivido de forma muito diferente pela mãe e pelo pai... quis ouvir as nossas expectativas e sentir a forma como estávamos a viver aquela perda. Havia respeito entre os dois, apesar das nossas diferenças e isso deixou-a mais tranquila. Falámos novamente sobre o processo fisiológico do parto e sobre o processo mental do parto.... sobre a minha entrega para que o Rafael pudesse nascer... e partir. E não é fácil fazer nascer um bebé que sabemos não podermos levar para casa nos braços. É tão difícil...

Nessa noite deitei-me cedo. Estava muito cansada e precisava de descansar para poder aguentar as exigências físicas e psicológicas do dia seguinte.

No sábado acordámos cedo. Às 8h entrámos no hospital, subimos ao piso 4 (maternidade) e esperámos pela Rita e pela troca de turno da equipa. A minha OB veio ter connosco assim que nos viu. A sua presença foi muito importante para mim naquele dia. Quando a Rita chegou ainda esperámos que a Enfermeira-chefe autorizasse a sua entrada - porque normalmente só entra para o internamento um acompanhante - mas não houve problema nenhum. Aliás, a Dra Patrícia já sabia que eu iria estar acompanhada por uma doula sem ter levantado qualquer problema nem perguntado por que razão queria eu uma doula na minha situação... O quarto que nos reservaram era o último do corredor. Havia obras nesse dia e aquele era o sítio mais sossegado... ainda assim só me lembro de ouvir barulho de manhã... Depois de vestir a bata branca, a minha médica foi buscar-me ao quarto para o início da indução: a introdução de umas laminárias no colo do útero para uma dilatação mecânica progressiva. As laminárias - já me tinha explicado e voltou a explicar - eram uma pauzinhos de algas que incham com o muco cervical e desta forma vão dilatando o colo do útero. Eram 9:30

Quando me deitei na marquesa as lágrimas escorreram-me sem que pudesse controlá-las. Ninguém me disse para não chorar, que ia passar... deixaram-me chorar. Afinal era normal. A introdução das laminárias não é um processo doloroso mas é o início do final de uma etapa muito dura: a perda física de um bebé que ainda se carrega no ventre... a minha médica foi muito cuidadosa e esforçou-se para não me provocar mais sofrimento. Estou-lhe tão grata por isso...

Senti logo uma pressão no colo do útero mas não era propriamente dor. Segui de cadeira de rodas para o quarto. A enfermeira pôs-me um catéter na mão (as minhas veias do antebraço desapareceram naquele instante e ela não teve outra opção) e mediu-me a tensão. O meu ritmo cardíaco estava tão acelerado que ela me ofereceu um calmante. Eu aceitei. Estava, de facto, muito nervosa! E com medo. Tinha tanto medo... nunca tinha passado por um parto vaginal... nunca tinha sentido contracções na minha primeira gravidez... a minha filha nasceu por cesariana, devido a complicações no final da gravidez sem que eu tivesse entrado em trabalho de parto sequer. Passar por um parto para fazer nascer um bebé que não tinha hipótese de sobreviver era verdadeiramente assustador. Não sabia como o meu corpo ia reagir à indução... não sabia como eu ia reagir à dor provocada pelas contracções e por toda a situação da interrupção daquela gravidez tão desejada...

Esperámos no quarto cerca de três horas. Falámos sobre as mais variadas coisas, ouvimos música calma, recebi umas massagens da Rita para estimular o útero, outras para relaxar, o meu marido teve tempo de ir almoçar e a Rita também. Eu tinha já algumas dores constantes e muita sede. Lembro-me de ter sempre os lábios secos e imensa sede, mesmo depois de beber chá...

Eram 13h quando me levaram para retirar as laminárias. A minha médica não me conseguiu rebentar o saco porque tinha o "colo comprido"... acho que isso teria acelerado o processo mas aconteceu o que tinha de acontecer. Em seguida deram-me um comprimido sublingual para iniciar as contrações (Cytotec) e a enfermeira sugeriu pôr-me um frasco de petidina no soro. Explicou que o início das contracções provocadas pela medicação poderia ser muito rápido e doloroso e a medicação iria permitir-me descansar um pouco... o dia poderia ser longo... e eu aceitei. Disse-me também que com uma dilatação de 3, 4 dedos o meu bebé já conseguiria descer porque às 14 semanas ainda era muito pequenino. A enfermeira-chefe era muito simpática e até nos contou por que razão tinha feito a especialidade em saúde materna e obstetrícia e a dificuldade que ela tinha em lidar com situações de morte... como aquela que estava ali a assistir. Quando ela saiu, aproveitámos todos o efeito da petidina, e descansámos por uma ou duas horas... eu na cama, o meu marido no sofá e a Rita na poltrona. Não cheguei a adormecer verdadeiramente mas pude fechar os olhos e descansar. Não sei dizer exactamente quanto tempo se passou. Sei que as dores aumentavam mas mantinham-se constante na zona do colo do útero.

Eram 16h quando a enfermeira se foi despedir de nós ao quarto: o turno dela tinha acabado e eu não estava a perceber por que é que ela se ia embora... mas já tinham passado 8 horas desde que tínhamos entrado no hospital!

O enfermeiro-chefe do segundo turno era igualmente amoroso. Deu-me mais dois comprimidos Cytotec e perguntou-me como estavam as dores. Eu já sentia muitas dores mas não conseguia identificar um pico e um tempo de intervalo entre um novo pico, como a Rita me tinha explicado que era normal sentir. Tanto ele como eu concordámos que não seria necessária uma analgesia epidural e fiquei com um frasquinho de paracetamol.

A partir daqui já não consigo fazer um relato preciso do que se passou... sei que a certa altura senti um líquido a escorrer por entre as pernas, a médica veio e disse que era o saco que tinha rebentado espontaneamente com as contracções. Fez-me um toque (sempre com o cuidado de me tapar as pernas porque com ela entravam no quarto 3 ou 4 enfermeiros e sem nunca me provocar dor) mas ainda não sentia nada... o enfermeiro perguntou-me se conseguia levantar-me e andar um pouco. Levantei-me mas andar custava-me muito. Aliás, estar em pé custava-me muito. O João já tinha enchido a nossa bola de pilates e eu já tinha experimentado sentar-me em cima dela mas não me sentia confortável. Experimentei então ficar de joelhos no chão apoiada na bola mas quando baixei a cabeça fiquei tão mal-disposta que precisei de ir vomitar. Acabei por vomitar os comprimidos que ainda tinha debaixo da língua... a médica trouxe mais um comprimido... não sabia ao certo que quantidade eu tinha tomado e que quantidade tinha vomitado... de novo senti vontade de vomitar mas desta vez consegui tirar o comprimido antes de chegar à casa de banho! Vomitei apenas chá e sumo... não tinha conseguido comer a gelatina que entretanto me tinham trazido. A partir daqui as contracções tornaram-se muito intensas e a posição em que me sentia mais confortável era ajoelhada no chão, com os braços apoiados na cama. Os estores estavam semi-fechados há algumas horas e acho que a música que tínhamso levado continuava a tocar... não tenho total consciência do que se passava à minha volta mas sei que estivemos sempre sozinhos. Os enfermeiros só vinham ao quarto quando os chamávamos ou quando eram horas de nova toma de comprimidos. Aquele foi um tempo muito nosso, onde a Rita me pôde fazer massagens com uns óleos muito elogiados por quem entrava no quarto, um tempo onde puder beber um chá que vim a descobrir ser apenas delicioso durante o trabalho de parto, um tempo onde me senti segura e pude concentrar-me em fazer nascer o meu bebé pequenino de forma respeitada e humanizada...

Não sei que horas eram quando senti vontade de fazer cocó e pedi para chamar a médica. Ela veio logo e lembro-me de ouvir uma enfermeira dizer: "Então está de cócoras no chão?" mas ninguém respondeu. Disse que estava com receio de ir à casa de banho e expulsar o meu bebé na sanita. A médica observou-me e disse para ir à vontade, que ainda não tinha descido, para não estar preocupada. Fui à casa de banho às escuras e por lá fiquei ainda algum tempo mesmo depois de ter acabado de fazer cocó. Estar sentada na sanita era uma posição confortável e aliviava-me as dores. Não sei quanto tempo ali fiquei mas sei que quando saí regressei à minha posição confortável de joelhos no chão e cabeça apoiada na cama, ali no cantinho de costas para o meu marido e para a Rita, que apenas observavam. Lembro-me de ter muito frio e de me cobrirem com um cobertor. Lembro-me de sentir dores nas ancas quando a Rita me tocava nessa zona e no cóccix. Não sei quanto tempo ali estive mas só voltei a levantar-me quando senti um novo líquido quente a escorrer pelas pernas abaixo. Espreitei e vi que já não era só líquido amniótico, também havia sangue. Disse que estava a sangrar e nesse instante as contracções pararam. De um momento para o outro deixara de sentir dores. Não senti vontade de fazer força porque o meu bebé era tão pequenino que não fazia pressão nenhuma para nascer... Acho que ouvi a Rita dizer: "O teu bebé já passou" ou terei imaginado? A percepção do que se passava à minha volta não era de total consciência, como diria a Rita, estava num estado de “consciência alterada” muito própria da fase activa do trabalho de parto...

A médica e cinco ou seis enfermeiros entraram apressados no quarto... o meu marido deve ter dito algo que os assustou, não sei... a médica pediu-me para subir para a cama mas eu não parava de pingar e estava a sujar tudo com sangue... examinou-me e disse que o bebé já estava no canal vaginal. Estava mesmo a sair... levaram-me para o bloco de partos. O meu marido quis seguir comigo. A Rita ficou no quarto - muito feliz, soube depois, porque o João decidiu na altura, de forma espontânea, acompanhar-me até ao nascimento do nosso bebé.

Já no bloco de partos senti muito frio e custou-me olhar para aquelas luzes brancas. O enfermeiro que me acompanhava confirmou que aquela sala era, de facto, muito fria. O anestesista chegou e apresentou-se, disse que me ia pôr-me a dormir por 10 minutos. Havia alguma pressa na sala e a última coisa que senti foi algo suave e quentinho sair de dentro de mim... era o meu bebé que tinha nascido... que tinha morrido...

As lágrimas voltaram a escorrer e adormeci de mão dada com o João. Eram 18:20.

Tínhamos combinado com a Dra Patrícia fazer a impressão dos pezinhos mas ela não conseguiu... o nosso bebé era ainda muito pequenino. O João contou-me depois que ela saiu do bloco de partos para ir buscar um papel do hospital e poder fazer a impressão do perfil do nosso bebé (o papel que tínhamos levado não era o melhor). Também tirou uma fotografia que enviou logo por email ao João. Eu dormia. Sei que me foi feita uma curetagem muito ligeira porque a placenta nasceu quase toda. Sei que os meus níveis de oxigénio baixaram durante a sedação e que o anestesista usou uma bomba manual para estabilizar os apitos do monitor, mas nada que tivesse sido preocupante.

Acordei com a voz do enfermeiro-chefe que chamava o meu nome. Disse-me que tinha corrido tudo bem e que estava na sala da enfermaria. Olhei para um relógio pendurado na parede: eram quase 19h e perguntei-lhe a que horas tinha nascido o meu bebé. Ele disse-me que tinha nascido às 18h30 (mas no relatório da alta médica a hora indicada é 18h20). Pedi-lhe para ver a caixinha onde tinham posto o bebé e ele foi buscá-la. Já tinha falado com a Drª Patrícia sobre esta possibilidade e na altura quis vê-lo. Acho que era importante para mim fechar este ciclo de nascimento e morte... Tenho também uma fotografia tirada pela médica que ainda não vi. E tenho muitas outras recordações bonitas de momentos de despedida que fomos criando em família ao longo da última semana de vida do meu bebé.

O João chegou pouco tempo depois à sala onde eu estava e contou-me o que se tinha passado no bloco de partos. Quando saiu, entrou a Rita para se despedir de mim. Sorria e ao mesmo tempo tinha os olhos cheios de lágrimas. Como eu a compreendi... Estar feliz e triste ao mesmo tempo é uma sensação muito estranha mas legitíma.

Saí do recobro e ainda jantei uma sopa, fruta e a gelatina que não tinha conseguido comer à tarde. Queria tanto comer aquela gelatina vermelha! Sentia-me bem fisicamente. Sem dores. A Drª Patrícia veio ver-me e dar-me alta. Fiquei tão feliz por poder ir dormir a casa, na minha cama! Esta tinha sido uma possibilidade discutida na consulta de 4f mas era apenas uma possibilidade e não uma garantia...

Eram 21h quando saí do hospital pelo meu próprio pé. Nada no meu corpo me doía. Apenas o coração estava pequenino e muito triste... sair de uma maternidade de braços vazios é um sentimento indescritível.

Nessa noite deitei-me perto da meia-noite e dormi bem. Há duas semanas que não conseguia dormir uma noite inteira... Acordei 12 horas depois. Um novo dia começava. O primeiro dia depois da morte do meu pequeno anjo Rafael. Muitos dias se seguirão porque a vida continua o seu percurso. Nada lá fora mudou. Tudo continua como estava. Só eu é que estou diferente. Agora sou uma mãe de colo vazio. Vou ter de curar as feridas que sangram no meu coração e aprender a viver com a perda de um filho muito desejado. Todos os dias. Resta-me a esperança de um dia poder ter outra oportunidade para conhecer este ser especial que viveu tão pouco tempo dentro de  mim...  A esse bebé que fez parte da minha vida por tão poucas semanas (12 das quais em que fui incrivelmente feliz) deixo as últimas palavras deste relato já demasiado comprido:

“Meu querido Rafael,
Espero um dia, algures, poder encontrar-te outra vez para podermos terminar a história que desta vez ficou inacabada. Espero um dia poder tocar-te, abraçar-te, sentir o cheiro da tua pele e do teu cabelo. Espero poder ver-te sorrir e poder acolher as tuas lágrimas. Espero um dia poder fazer parte da tua vida, seja de que maneira for. E dizer-te cara a cara que te amo. Que te amei desde o dia em que sonhei poder carregar-te dentro de mim, muito antes de saber que te carregava mesmo dentro de mim!
A tua mamã Cláudia.”

                              

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26.7.17

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"Braga, 20 de Julho de 2017

A sala é fria e cinzenta como o meu coração se encontra hoje. Depois de assinar a autorização para a IMG e respectivo internamento sou acompanhada para esta sala porque não consegui conter as lágrimas quando a médica me explicou como iria ser o processo de matar e expulsar do meu corpo a minha bebé de 14 semanas e 2 dias. De certeza sou um incómodo para as outras mães que estão na sala de espera, porque os meus olhos estão vermelhos e não consigo disfarçar esta tristeza, este vazio... Já sabia que ia ser algo assim frio e impessoal, desprovido de humanidade. É a terceira vez que fico sem um filho.

O hospital ainda não tem cama disponível portanto resta-me esperar pela eventual alta de outra paciente que já esteja "despachada". 

Desta vez a situação é consideravelmente pior que as anteriores porque a esperança era maior.

 

Braga, 13 de Agosto de 2016

Perdi o meu primeiro anjinho. Foi no dia anterior, no dia de aniversário da minha filha, que comecei a ter os primeiros sintomas, hemorragias e dores fortes... já sabia que algo não estava bem... a última ecografia mostrou que o saquinho não estava numa posição normal, mas nada era definitivo, ainda havia alguma esperança. Eram apenas 7 semanas e muito cedo para perceber o que se passava. Chorámos muito nesse dia, começamos a preparar-nos para o pior...  mas acho que nunca conseguimos estar preparados para perder um filho.

O nosso corpo não costuma enganar-nos e o cansaço extremo, o apetite e o peito inchado, todos aqueles sintomas normais de uma grávida estavam a desaparecer. Pedi a Deus para não marcar o aniversário da minha filha com a morte de outro filho. Acho que me ouviu porque só no dia seguinte perdi o meu bebé, depois de nessa noite nas urgências me terem dito que o processo abortivo estava em curso. Não havia nada a fazer. Fomos para casa destroçados.

 

Não sou pessoa para baixar os braços e disse ao meu marido que isto não acaba aqui. Vamos voltar a tentar... da próxima vez irá correr melhor, vais ver! 

 

A próxima vez chegou em Dezembro do mesmo ano. Fui mais comedida na notícia do teste positivo de gravidez. Desta vez apenas contei às pessoas mais próximas.

 Em Agosto não conseguimos dizer logo à família... demoramos mais de um mês a dizer que estava tudo terminado, sem grandes explicações sobre como tinha acontecido ou quando. A barriga não crescia, não havia hipótese de esconder a verdade durante mais tempo. Não queríamos olhares de pena sobre nós ou comentários dizendo que já passei da idade de ter filhos. Sim, porque com 43 anos estamos velhas para isso. Gravidez é para mulheres novas de 20 e 30 anos (!)

 

Braga, Janeiro de 2017

Esta segunda gravidez foi recebida com esperança e apreensão. A primeira ecografia feita às 6 semanas mostrou um embrião bem posicionado e com batimentos cardíacos. Ficamos felizes...fizemos planos. Acreditámos que o azar não ia bater à nossa porta duas vezes. Errado! Duas semanas depois os sintomas voltam a desaparecer. Menos 2,5 kg na balança... hemorragia, algo se passa outra vez. Vamos de imediato às urgências para ouvir o veredicto que nos arrasa: o embrião não apresenta batimentos cardíacos. O meu bebé morreu dentro de mim e eu não sei porquê. 

O meu marido chora como uma criança. Ele ainda não tem filhos e só estamos juntos há 4 anos e a cada insucesso vê as probabilidades de ser pai diminuirem. A minha filha tem 22 anos e é do meu primeiro casamento. Isto também não é justo para ele. 

Sou encaminhada para uma consulta. O corpo não expulsou o embrião, terá que ser provocado. Sou atendida por uma médica (Dra. E) de quem gostei muito pela frontalidade e meiguice com que nos atendeu... diz-me que é normal, que está sempre a acontecer. A idade é um risco acrescido, que normalmente tem a ver com anomalias cromossómicas e que é impossível evitar certos desfechos. Gostei dela. Disse-nos que nos ia ajudar a pôr uma criança no mundo e queria acompanhar tudo até ao parto. Dá-nos um abraço e mostra-se disponível para o que for preciso. No meio da tristeza e desilusão, quis dar-nos alguma esperança, algo inédito num Hospital público. Fomos para casa destroçados. Fiz a medicação para expulsão e depois de um dia e uma noite de inferno acabou tudo. 

 

Sesimbra, Abril de 2017

Voltámos aos treinos. Tiramos uns dias para descansar e namorar. Como das outras vezes somos metódicos com o calendário. Muitas contas aos dias da ovulação, alguma preparação com medicação e o optimismo da Dra E. com a seguinte receita: ácido fólico, iodo, cartia e progesterona + o resto (muito amor, claro). O meu marido disse com grande motivação que do "resto" tratava ele. 

 

Braga, 17 de Maio de 2017

Nova esperança. Vai ser desta: à terceira é de vez! 

Desta vez não compro babygrows e ficamos muito calados. Ainda sou mais reservada na notícia. Só mesmo quem me conhece muito bem se apercebe de algumas mudanças. 

Vou a uma nutricionista, quero alimentar-me bem, evitar muito aumento de peso porque já sou cheinha. Quero tudo o mais saudável possível. Deixo de fazer grandes viagens de carro, só pequenos percursos. Começo a delegar mais trabalho na equipa, evito ao máximo o stress. Desta vez tem que correr tudo bem... que não seja por minha culpa. 

Todos os dias olho para o peito, tento perceber se existe alguma diminuição dos sintomas de gravidez... nada... tudo normal. As semanas passam, ecografia Ok, estamos quase na 12. semana, quase a passar a fase perigosa. Escondo-me debaixo de roupa larga. Os meus colegas não podem perceber. A família do meu marido não sabe de nada, apenas a minha mãe, filha e irmã sabem. Evito aparecer... não quero perguntas. As calças já não apertam. É preciso comprar algo adequado... compro alguns pares com espaço para a barriga crescer. E já está a notar-se bem... estamos na 12. semana. Ecografia Ok. Tenho vontade de contar a toda a gente, mas contenho-me... ainda não. Quero ter certezas. É marcado o exame da translucência nucal.

 

Braga, 4 de Julho de 2017

O exame é feito por um médico conceituado num Hospital Privado. Dizem-me que é dos melhores. Peço-lhe: eu hoje só quero ouvir boas notícias Dr. já temos a nossa conta de más... 

Começa a examinar e diz que é um bebé muito mexido, teremos que andar atrás dele. Depois cala-se... silêncio total.  Silêncio desconfortável, premonitório. Diz-me: eu não tenho boas notícias para te dar Susana... eu penso: ele é brincalhão e vai dizer que não tem boas, tem excelentes! Depois pergunta: queres saber toda a verdade não é? A TN está muito aumentada, todos os marcadores estão contra ti. Não verifico osso nasal, TN 6,00 e as análises bioquímicas alteradas. O mais provável é ter alterações cromossomicas. Tenho quase a certeza! 

O meu mundo desaba, caiem as lágrimas pelo rosto do meu marido. Parece um rio... eu tento manter a calma. Pergunto-lhe: mas Dr. são meras probabilidades não são?? Tem a ver com o risco. Não é um diagnóstico, não é uma sentença pois não?? Ele responde: ainda não. 

Faço a biópsia das vilosidades. 

O resultado foi comunicado dias depois. Entrei para as piores estatísticas: Trissomia 21 ! 

 

Fui imediatamente ao encontro da Dra E. que me atendeu nas urgências. Mostrei-lhe o resultado e ouço-a dizer: merda, merda, que merda!!!! Vocês já mereciam outra coisa! Abraça-me dá um beijo e faz uma festa na cabeça do meu marido e diz: eles também sofrem... vou receitar-vos algo para ficarem mais calmos. Eu não quero nada. Não quero drogas para adormecer, nem para ultrapassar a dor. Será tudo a frio. 

 

A decisão é óbvia! Esta síndrome não é incompatível com a vida. Mas para os médicos não é razoável manter a gravidez, para nós também não. É uma decisão dos pais sim, mas para mim um egoísmo e uma irresponsabilidade saber que será uma criança que dependerá totalmente dos pais e de terceiros para toda a vida e ainda assim prosseguir. Como ficará a vida de um filho meu nessa condição se me acontecer alguma coisa ou ao pai? Como o trataria a sociedade? Os colegas, a família? Seria alvo de chacota na escola? Que problemas de saúde teria? Li muito sobre a síndrome de Down nestes últimos tempos. Percebi que estão à margem da sociedade, sem apoios e são descriminados. Os pais lutam como podem. São crianças com necessidades especiais mas sem tratamento especial. Tenho muito respeito por estes pais, mas não posso ser um deles. Muitos foram surpreendidos com este problema apenas no dia do nascimento porque os exames não foram além das ecografias normais. Porque o risco era demasiado pequeno, mas existia e foi negligenciado.

 

A minha menina não vai passar por isso... não vou permitir. Foi muito desejada mas prefiro abdicar dela a vê-la sofrer e a sofrer por ela.

 

Perdoa-me filha e que Deus me perdoe também. Serás mais uma estrelinha que te juntarás aos teus irmãos que já brilham no Céu ✨

 

Mãe Susana"

 

link do postPor projectoartemis, às 11:08  ver comentários (1) comentar

20.7.17

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Esta imagem talvez seja a melhor forma de fazermos entender a diferença entre a vida in útero e fora do útero.

Para alguma pessoas a dificuldade em entender que um bebé dentro de uma barriga não é apenas o feto é imensa. Esta é uma forma que encontramos para talvez assim entenderem que dentro ou fora do útero um bebé é sempre um bebé.

Estas 4 imagens são de bebés (3 delas fetos para os clínicos), sendo que apenas 1 é fora do útero.

Expliquem-nos, se conseguirem o que é diferente. Para além do local onde se encontram, que diferenças vêem olhando para as imagens, que vos permita dizer com toda a convicção que apenas numa das imagens está um bebé.

 

 

link do postPor projectoartemis, às 14:55  comentar

Já conhece os serviços que a Associação Projecto Artémis tem disponíveis?

 

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link do postPor projectoartemis, às 11:52  comentar

18.7.17

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À medida com vou lendo artigos, por aqui e por ali, à medida que vou ouvindo entrevistas e lendo comentários sobre perda gestacional, fico cada vez mais com a ideia que não entendem o nosso propósito, a nossa luta.

Por isso acho que nunca é demais explicar e esclarecer.

Quando falamos que perdemos um bebé durante a gravidez e se inicia um processo de luto, não queremos generalizar isto a todas as mães e pais. Há casais que lidam muito bem com esta perda. Há casais que efectivamente para eles um feto, um embrião, é apenas isso… um feto, um embrião. E até aqui tudo bem, cada um lida com o que tráz no ventre da forma que quiser. Contudo e aqui sim é que me faz imensa confusão (diria até irrita-me) é que não se aceite, não se compreenda e não se respeite que há casais que desde o primeiro minuto que sabem que estão grávidos (alguns até antes) estabelecem um vínculo afectivo com um bebé e não com um feto (já sei clinicamente é um feto, mas para estes pais não é apenas um feto).

Não quero, nem queremos (Associação Projecto Artémis) impor a ninguém estes bebés, mas quero e queremos que RESPEITEM cada um destes pais que amam estes filhos como tal, como um bebé e não como um feto.

Quero e queremos que respeitem a sua dor quando os perdem, pois estes casais vivem de uma forma intensa aquele filho.

Quando ouço por aí perguntarem se os pais vêem um feto como um filho, se os pais contam a perda de um feto como a perda de um filho, faz-me alguma confusão.

Vou passar a dizer sabem antes de ter o meu filho eu tive um feto dentro de mim, estava grávida e deixei de estar, porque aquele feto saiu e deitei-o ao lixo.

Feri susceptibilidades? Desculpem. Soou um bocadinho estranho? Desculpem. Mas é assim que muitas pessoas querem impor que se fale sobre o assunto.

Não, eu recuso-me a falar desta forma. Eu estive grávida de um bebé, eu perdi um bebé. E agradeço que respeitem. Claro que clinicamente era um feto. Ninguém diz o contrário, mas eu não falo no meu dia a dia como médica, eu falo como mãe. Senão vejamos, e vou de novo ferir susceptibilidades. Depois de nos morrer um pai ou uma mãe nós dizemos que somos filhos de um cadáver? Não, mas é o que aquela pessoa passa a ser… um cadáver.

Desculpem a forma tão fria, mas começo sinceramente a achar que só desta forma vão começar a respeitar a dor de cada um de nós.

Sandra Cunha

link do postPor projectoartemis, às 12:21  comentar

6.7.17

Antes demais acho que me devo apresentar, sou a Sandra e sou presidente da Associação Projecto Artémis.

Bem, vou corrigir o início do meu texto. Porque mais do que me apresentar a mim, acho melhor e bem mais importante apresentar a associação que represento (com IMENSO ORGULHO, note-se).

A Associação Projecto Artémis é uma instituição sem fins lucrativos que existe desde Dezembro de 2005. É uma associação que presta apoio a casais e seus familiares, que passaram por uma perda gestacional. Já conheciam? Alguma vez ouviram falar? Talvez sim, talvez não. Se ouviram que importância lhe deram?

Mas talvez seja melhor focarmo-nos na causa que a Associação Projecto Artémis tem na sua base de trabalho. PERDA GESTACIONAL!!!! Mais do que conhecerem ou falarem da nossa associação eu gostava que se fala-se de perda gestacional.

Ah!!!! Esqueci-me… falar de morte é sempre complicado. Então de falarmos da morte de alguém que não se viu….. nem é bom pensar. Melhor ainda nem é bom lembrar… Sim… a frase é mesmo esta. Esta é a frase que estes pais que perdem os seus filhos durante a gestação tanto ouvem: esquece isso. Esquece-se isso????? A ver se nos entendemos… isso não…. Filho!

Ah!!! Estou-me a esquecer de novo… é que para o comum dos mortais, ou pelo menos a maioria deles não era um filho, vamos lá ver os nomes que atribuem: embrião, feto, coisa, isso, feijãozinho, eu sei lá mais o quê. Só não lhe chamam aquilo que efectivamente lhe deveriam chamar: FILHO!

Irrita-me profundamente que seja assim tão difícil entenderem de uma vez por todas que a gestação é muito mais que 9 meses, que se está a engordar com uma “coisa” dentro do nosso ventre que saí ao fim dos tais 9 meses. Uma gestação não começa quando se faz um teste de gravidez. Sabiam que há mulheres e homens que iniciam a vinculação com a “tal coisa” muito antes da “coisa” existir? Então se calhar é melhor começar-se a entender que uma gestação vai muito para além dos tais 9 meses e do acto de parir.

Para além de ser necessário entenderem o que é efectivamente uma gestação emocionalmente é importante entender-se outra coisa: o que é ser mãe e pai. E aqui podemos analisar separadamente, mas ambos são pai e mãe desde o primeiro minuto que aquela “coisa” está dentro do ventre da mulher. Mas é difícil entenderem,  até porque quando um casal está grávido (sim porque estão os dois) ouve-se muito: vão ser pais? NÃO!!!!!!! Não vão ser pais, JÁ SÃO!!!!!

Entendem a diferença? Entendem o poder das palavras? Entendem que aquela “coisa” (e nem imaginam o quanto me irrita ver no meu próprio texto esta palavra) não é uma coisa. É UM FILHO!!!!!!

Mas se calhar, e pegando no início do meu texto, talvez seja mais fácil de uma vez por todas para entenderem que estamos a falar de perder um filho, visitarem o fórum da associação Projecto Artémis ou a nossa página no FB e lerem o que estes pais vos querem dizer, lerem o sofrimento que vocês… sim porque são vocês (não são todos, mas são muitos os que têm dificuldade em entender) os obrigam a viver em silêncio e quase que ter vergonha de sofrerem pela perda daquele filho.

Está na hora de mudar mentalidades! Está na hora de fazer melhor! E o fazer melhor neste caso começa simplesmente por respeitar todos os bebés que partem cedo demais.

 

Um abraço muito apertado a todos os pais e mães que vivem diariamente com a saudade e a memória de um filho que carregaram no ventre e vive apenas no seu coração

 

Sandra Cunha

 

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Espaço de partilha com objectivo de diminuir a falta de informação técnica e emocional a mulheres que vivenciam o luto da perda de um bebé ao longo da gravidez, bem como quebrar o Pacto de Silêncio resultante de todo esse processo de luto na Perda Gestacional.
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projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

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