14.11.10

Na última semana o aborto espontâneo foi assunto duas vezes. Primeiro, porque a cantora britânica Lily Allen perdeu o bebê. Depois, porque o ex-presidente dos EUA George Bush contou, na TV, um episódio de sua adolescência, quando a mãe lhe mostrou um pote com o feto que havia perdido.

Falar do assunto é o que menos acontece na vida de quem não é celebridade. Sociedade e medicina não dão suporte emocional para quem passou por aborto espontâneo, segundo organizações que trabalham com grávidas.

"Nas maternidades, essa mulher é tratada como se não tivesse acontecido nada de especial com ela. Fica apática por estar deprimida, e os profissionais dizem que ela "aceitou" a perda", diz a psicóloga Márcia Rodrigues.

Para sua tese de mestrado, Rodrigues acompanhou, entre 2007 e 2008, mulheres que tiveram filhos natimortos em hospitais de São Paulo. A conclusão da pesquisa é que a dor da perda é agravada pelo despreparo dos profissionais e pelo silêncio que as pessoas próximas impõem em relação à perda.

 

 

CHOQUE EMOCIONAL

"A maioria dos médicos só vê e fala dos aspectos técnicos. Mas essa mulher precisa de alguém que a ouça, porque o mais difícil é lidar com o choque emocional de alguém que estava esperando uma vida, não a morte", afirma Rodrigues.

Do ponto de vista médico, é esperado que até 20% das gestações acabem em aborto espontâneo nos três primeiros meses. A maioria dos casos é provocada por alterações nos cromossomos, que causam defeitos no feto.

"Para o médico, é como se fosse uma "seleção natural", pode fazer parte da rotina. Mas não podemos desvalorizar o que a mãe está sentindo, banalizando o evento", diz o ginecologista Newton Eduardo Busso, secretário-geral da Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo).

Marcia Rodrigues conta que, em sua pesquisa, os profissionais de saúde se mostraram despreparados para ajudar essa mulher. "Às vezes, não é preciso muito, só ouvir o que ela tem a dizer. Uma enfermeira bem formada pode fazer isso", afirma.

A psicóloga acredita que a formação de profissionais para o parto humanizado também ajuda a humanizar os procedimentos associados ao aborto espontâneo ou ao parto de natimortos.

 

 

DIGNIFICAR O LUTO

A escritora portuguesa Maria Manuela Pontes, autora de "Maternidade Interrompida" (ed. Ágora), afirma que a sociedade não dignifica o luto da mulher que sofreu aborto espontâneo.

"Perder um bebê no útero é um dos piores lutos que existem. Para elaborá-lo, a mulher precisa falar do que está sentindo e ser ouvida por todos ao seu redor."

Para o psicanalista Roosevelt Cassorla, autor de "Da Morte" (ed. Papirus), é exagero afirmar que a sociedade desqualifica a dor e o luto dessas mulheres.

"Talvez apenas não valorize tanto, porque ainda não era um ser nascido, e o aborto espontâneo faz parte das possibilidades da gestação. A consequência é que a mãe se sente só, e para elaborar um luto é necessário compartilhar com outras pessoas."

 

IARA BIDERMAN
DE SÃO PAULO

FSP

link do postPor projectoartemis, às 12:48  comentar

 
Espaço de partilha com objectivo de diminuir a falta de informação técnica e emocional a mulheres que vivenciam o luto da perda de um bebé ao longo da gravidez, bem como quebrar o Pacto de Silêncio resultante de todo esse processo de luto na Perda Gestacional.
Envie a sua questão
Este consultório online é um espaço onde pode colocar as suas dúvidas no âmbito da Perda Gestacional. Este Consultório tem um carácter informativo e o acompanhamento médico especializado por parte dos leitores não deve ser descuidado.

E-mail: projectoartemis@sapo.pt

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape
Direcção APA
projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

Contacto:
Telefone:938633707
E-mail: projectoartemis@sapo.pt
Site: www.facebook.com/associacaoartemis

Orgão Sociais
Direcção:
Presidente - Sandra Cunha
Vice Presidente - Patrícia Vilas Boas
Secretária - Andreia Neves
Tesoureira - Susana Rodrigues
Vogal - Marco Jesus
Assembleia Geral:
Presidente - Anabela Costa
1ª Secretária - Vanessa Mack
2ª Secretária - Sílvia Melo
Conselho Fiscal:
Presidente - Ricardo Fortuna
Vogal - Mónica Cunha
Vogal - Manuel Vilas Boas
Novembro 2010
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30


arquivos
blogs SAPO