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"Braga, 20 de Julho de 2017

A sala é fria e cinzenta como o meu coração se encontra hoje. Depois de assinar a autorização para a IMG e respectivo internamento sou acompanhada para esta sala porque não consegui conter as lágrimas quando a médica me explicou como iria ser o processo de matar e expulsar do meu corpo a minha bebé de 14 semanas e 2 dias. De certeza sou um incómodo para as outras mães que estão na sala de espera, porque os meus olhos estão vermelhos e não consigo disfarçar esta tristeza, este vazio... Já sabia que ia ser algo assim frio e impessoal, desprovido de humanidade. É a terceira vez que fico sem um filho.

O hospital ainda não tem cama disponível portanto resta-me esperar pela eventual alta de outra paciente que já esteja "despachada". 

Desta vez a situação é consideravelmente pior que as anteriores porque a esperança era maior.

 

Braga, 13 de Agosto de 2016

Perdi o meu primeiro anjinho. Foi no dia anterior, no dia de aniversário da minha filha, que comecei a ter os primeiros sintomas, hemorragias e dores fortes... já sabia que algo não estava bem... a última ecografia mostrou que o saquinho não estava numa posição normal, mas nada era definitivo, ainda havia alguma esperança. Eram apenas 7 semanas e muito cedo para perceber o que se passava. Chorámos muito nesse dia, começamos a preparar-nos para o pior...  mas acho que nunca conseguimos estar preparados para perder um filho.

O nosso corpo não costuma enganar-nos e o cansaço extremo, o apetite e o peito inchado, todos aqueles sintomas normais de uma grávida estavam a desaparecer. Pedi a Deus para não marcar o aniversário da minha filha com a morte de outro filho. Acho que me ouviu porque só no dia seguinte perdi o meu bebé, depois de nessa noite nas urgências me terem dito que o processo abortivo estava em curso. Não havia nada a fazer. Fomos para casa destroçados.

 

Não sou pessoa para baixar os braços e disse ao meu marido que isto não acaba aqui. Vamos voltar a tentar... da próxima vez irá correr melhor, vais ver! 

 

A próxima vez chegou em Dezembro do mesmo ano. Fui mais comedida na notícia do teste positivo de gravidez. Desta vez apenas contei às pessoas mais próximas.

 Em Agosto não conseguimos dizer logo à família... demoramos mais de um mês a dizer que estava tudo terminado, sem grandes explicações sobre como tinha acontecido ou quando. A barriga não crescia, não havia hipótese de esconder a verdade durante mais tempo. Não queríamos olhares de pena sobre nós ou comentários dizendo que já passei da idade de ter filhos. Sim, porque com 43 anos estamos velhas para isso. Gravidez é para mulheres novas de 20 e 30 anos (!)

 

Braga, Janeiro de 2017

Esta segunda gravidez foi recebida com esperança e apreensão. A primeira ecografia feita às 6 semanas mostrou um embrião bem posicionado e com batimentos cardíacos. Ficamos felizes...fizemos planos. Acreditámos que o azar não ia bater à nossa porta duas vezes. Errado! Duas semanas depois os sintomas voltam a desaparecer. Menos 2,5 kg na balança... hemorragia, algo se passa outra vez. Vamos de imediato às urgências para ouvir o veredicto que nos arrasa: o embrião não apresenta batimentos cardíacos. O meu bebé morreu dentro de mim e eu não sei porquê. 

O meu marido chora como uma criança. Ele ainda não tem filhos e só estamos juntos há 4 anos e a cada insucesso vê as probabilidades de ser pai diminuirem. A minha filha tem 22 anos e é do meu primeiro casamento. Isto também não é justo para ele. 

Sou encaminhada para uma consulta. O corpo não expulsou o embrião, terá que ser provocado. Sou atendida por uma médica (Dra. E) de quem gostei muito pela frontalidade e meiguice com que nos atendeu... diz-me que é normal, que está sempre a acontecer. A idade é um risco acrescido, que normalmente tem a ver com anomalias cromossómicas e que é impossível evitar certos desfechos. Gostei dela. Disse-nos que nos ia ajudar a pôr uma criança no mundo e queria acompanhar tudo até ao parto. Dá-nos um abraço e mostra-se disponível para o que for preciso. No meio da tristeza e desilusão, quis dar-nos alguma esperança, algo inédito num Hospital público. Fomos para casa destroçados. Fiz a medicação para expulsão e depois de um dia e uma noite de inferno acabou tudo. 

 

Sesimbra, Abril de 2017

Voltámos aos treinos. Tiramos uns dias para descansar e namorar. Como das outras vezes somos metódicos com o calendário. Muitas contas aos dias da ovulação, alguma preparação com medicação e o optimismo da Dra E. com a seguinte receita: ácido fólico, iodo, cartia e progesterona + o resto (muito amor, claro). O meu marido disse com grande motivação que do "resto" tratava ele. 

 

Braga, 17 de Maio de 2017

Nova esperança. Vai ser desta: à terceira é de vez! 

Desta vez não compro babygrows e ficamos muito calados. Ainda sou mais reservada na notícia. Só mesmo quem me conhece muito bem se apercebe de algumas mudanças. 

Vou a uma nutricionista, quero alimentar-me bem, evitar muito aumento de peso porque já sou cheinha. Quero tudo o mais saudável possível. Deixo de fazer grandes viagens de carro, só pequenos percursos. Começo a delegar mais trabalho na equipa, evito ao máximo o stress. Desta vez tem que correr tudo bem... que não seja por minha culpa. 

Todos os dias olho para o peito, tento perceber se existe alguma diminuição dos sintomas de gravidez... nada... tudo normal. As semanas passam, ecografia Ok, estamos quase na 12. semana, quase a passar a fase perigosa. Escondo-me debaixo de roupa larga. Os meus colegas não podem perceber. A família do meu marido não sabe de nada, apenas a minha mãe, filha e irmã sabem. Evito aparecer... não quero perguntas. As calças já não apertam. É preciso comprar algo adequado... compro alguns pares com espaço para a barriga crescer. E já está a notar-se bem... estamos na 12. semana. Ecografia Ok. Tenho vontade de contar a toda a gente, mas contenho-me... ainda não. Quero ter certezas. É marcado o exame da translucência nucal.

 

Braga, 4 de Julho de 2017

O exame é feito por um médico conceituado num Hospital Privado. Dizem-me que é dos melhores. Peço-lhe: eu hoje só quero ouvir boas notícias Dr. já temos a nossa conta de más... 

Começa a examinar e diz que é um bebé muito mexido, teremos que andar atrás dele. Depois cala-se... silêncio total.  Silêncio desconfortável, premonitório. Diz-me: eu não tenho boas notícias para te dar Susana... eu penso: ele é brincalhão e vai dizer que não tem boas, tem excelentes! Depois pergunta: queres saber toda a verdade não é? A TN está muito aumentada, todos os marcadores estão contra ti. Não verifico osso nasal, TN 6,00 e as análises bioquímicas alteradas. O mais provável é ter alterações cromossomicas. Tenho quase a certeza! 

O meu mundo desaba, caiem as lágrimas pelo rosto do meu marido. Parece um rio... eu tento manter a calma. Pergunto-lhe: mas Dr. são meras probabilidades não são?? Tem a ver com o risco. Não é um diagnóstico, não é uma sentença pois não?? Ele responde: ainda não. 

Faço a biópsia das vilosidades. 

O resultado foi comunicado dias depois. Entrei para as piores estatísticas: Trissomia 21 ! 

 

Fui imediatamente ao encontro da Dra E. que me atendeu nas urgências. Mostrei-lhe o resultado e ouço-a dizer: merda, merda, que merda!!!! Vocês já mereciam outra coisa! Abraça-me dá um beijo e faz uma festa na cabeça do meu marido e diz: eles também sofrem... vou receitar-vos algo para ficarem mais calmos. Eu não quero nada. Não quero drogas para adormecer, nem para ultrapassar a dor. Será tudo a frio. 

 

A decisão é óbvia! Esta síndrome não é incompatível com a vida. Mas para os médicos não é razoável manter a gravidez, para nós também não. É uma decisão dos pais sim, mas para mim um egoísmo e uma irresponsabilidade saber que será uma criança que dependerá totalmente dos pais e de terceiros para toda a vida e ainda assim prosseguir. Como ficará a vida de um filho meu nessa condição se me acontecer alguma coisa ou ao pai? Como o trataria a sociedade? Os colegas, a família? Seria alvo de chacota na escola? Que problemas de saúde teria? Li muito sobre a síndrome de Down nestes últimos tempos. Percebi que estão à margem da sociedade, sem apoios e são descriminados. Os pais lutam como podem. São crianças com necessidades especiais mas sem tratamento especial. Tenho muito respeito por estes pais, mas não posso ser um deles. Muitos foram surpreendidos com este problema apenas no dia do nascimento porque os exames não foram além das ecografias normais. Porque o risco era demasiado pequeno, mas existia e foi negligenciado.

 

A minha menina não vai passar por isso... não vou permitir. Foi muito desejada mas prefiro abdicar dela a vê-la sofrer e a sofrer por ela.

 

Perdoa-me filha e que Deus me perdoe também. Serás mais uma estrelinha que te juntarás aos teus irmãos que já brilham no Céu ✨

 

Mãe Susana"

 

link do postPor projectoartemis, às 11:08  comentar

De Patricia a 27 de Julho de 2017 às 08:49
Não existem palavras para consolar uma mãe em nenhuma fase de uma perda.
Até a palavra força e forte perdem sentido na vida.
Por isso um abraço apertado e chore muito quando quiser!

 
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