30.9.16

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"O mais engraçado disso tudo, é que passo dias sem conta a reviver aquela semana, mas quando penso em escrever o meu testemunho, fico com um nó na garganta e com os olhos rasos de lágrimas...

Em Maio de 2013, tive um aborto logo no início da gestação. Estávamos de férias quando fiz o teste, não me esqueço da emoção... O coração a bater quase na boca. Duas riscas, embora uma delas muito ténue.
Contei ao pai, que tal como eu, teve medo e ficou feliz ao mesmo tempo.
Uma semana depois, começo a perder um sangue castanho... Nada de significativo, fiquei assustada, mas como li que isso pode ser normal no início da gravidez, não dei tanta importância.
No entanto, o sangramento aumentou... E lá decidimos ir ao hospital.
Fui tratada da maneira mais fria que poderia haver. Fazem a eco, e realmente não se vê nada... Primeiro, pergunta se estou de facto grávida. Eu respondo que fiz o teste de farmácia, dava positivo, mas a segunda linha era muito ténue. Ao que ela me diz então que estou em processo de aborto e o corpo está a fazer o trabalho dele. Eu pergunto então o que correu mal, e ela só responde que não era para ser.
Eu pedi que fosse feita análises ao sangue, pois tinha medo de uma gravidez ectópica... Contra gosto, a médica pediu a análise.
A enfermeira que me viu a seguir, ao contrário da médica, era um amor de pessoa... Quando saiu o resultado diz que, para aqueles valores, ou estava de menos tempo do que imaginava (o que pelas minhas contas era praticamente impossível) ou de facto estava em processo de aborto. Digeri aquilo da maneira que podia, fui ter com o pai à sala de espera, ele fica tão estupefacto quanto eu, e vamos para casa. De facto o sangramento aumenta, e lá se vai um "sonho" por água abaixo... Na semana a seguir voltei ao hospital, por recomendação da enfermeira, fazem uma eco e dizem que o útero está limpinho.
A médica que está nas urgências neste dia diz que no mês a seguir, Junho de 2013, era melhor evitar relações sexuais devido ao alto risco de infecção.
Assim o fizemos.

Em Julho de 2013, retomamos a nossa vida normal. Eu voltei a tomar a pílula, não pensávamos mais em filhos tão cedo, mas... Em Agosto de 2013, o período está atrasado novamente. Eu já não acredito em gravidez, penso que se calhar estou com algum problema hormonal, tenho que ir ao ginecologista.
No dia 15/08/2013, comprei um teste de farmácia por descargo de consciência, precisava de despistar uma possível gravidez... E dessa vez, tenho duas linhas bem fortes. Positivo.
Não fiquei feliz... Aliás, a falta de felicidade e algum sentimento de perda foi o que me acompanhou durante toda esta gravidez.
Estava escaldada da vez anterior, perguntava-me como a pílula havia falhado, eu não me esqueci de nenhum dia.
Não pus os pés nas urgências, fiz tudo com muita calma.
Fui ao centro de saúde, e a primeira ecografia foi feita no dia 11/09/2013. Lá estava o meu bebé. Medidas certas, batimentos cardíacos ok, era perfeito... Fiquei encantada com o milagre da vida naquele dia...
A gravidez seguiu sem nenhum susto. No dia 18/11/2013, descobrimos que era uma menina... Maria Leonor. Foi o pai quem deu o nome, em homenagem à tia e madrinha dele.
Naquela altura sentia-me mais confiante, mas sempre com um aperto no coração...
Começamos então a fazer um enxoval de princesa.
No meio da gravidez eu tinha:
A minha mãe com o braço partido, encontrar casa para nós, preparar o enxoval da menina e gerir as minhas hormonas de grávida.
Às 25 semanas, fizemos uma ecografia em 3D, e graças à Deus que a fizemos... É a recordação que tenho da minha menina.
Ela já tinha umas bochechas enormes, o nariz era como ao meu, os dedos também, eram longos...
Também nesta altura comecei com dores de cabeça. Nunca tinha sentido tantas dores de cabeça na vida! Ficava mal disposta e via pontos brancos... Falei no centro de saúde, a única coisa que me perguntaram foi se passava com o Ben u ron e eu disse que sim.
Vim a saber depois que tive tensões consideradas altas para uma grávida, mas nada me foi dito... Era a minha primeira gravidez, confiava nos médicos, é o suposto, não é?
Ecografia do terceiro trimestre no dia 31/01/2014. Bebé com medidas excelentes, perfeita, já pesava 1820 kg, nessa ecografia nos fez um "adeus" e até uma gracinha com a boca... Mal sabíamos nós que era a última vez que víamos a nossa filha com vida.
A DPP se aproximava, as dores de cabeça continuavam, tínhamos que tornar a casa habitável para a bebé, as decorações vinham depois.
Às 34 semanas começo a inchar, desvalorizado mais uma vez pela médica de família, era normal para o fim da gravidez.
Às 37 semanas, tenho a primeira consulta no HPP de Cascais. O CTG corre bem, não olham para o livro da grávida no que toca as tensões, peso, medem a tensão e está boa naquele dia.
Se a bebé não nascesse entretanto tinha consulta duas semanas depois para nova avaliação.
Às 38 semanas tenho as malas prontas, tudo muito cor de rosa, tudo muito piroso... Sentia-me ansiosa, mas aquela sensação de perda, de que ela não era minha continuava a acompanhar-me... Pedi ao pai que, se caso tivessem que escolher entre eu e ela, que ele escolhesse à ela. Eu sentia que algo estava para acontecer (para além do parto iminente), só não sabia o que.
Às 39s e 5d, nova consulta no hospital. Na semana anterior, notei que os movimentos dela diminuíram consideravelmente. Mexia-se bem, mas não como o habitual. Comentei nesta consulta, mas foi me dito que era normal, que ela já não tinha tanto espaço quanto isso.
Neste dia foi difícil apanhar o foco do coração dela, estava sempre a perder o sinal e ela mal se mexia... Então a enfermeira diz que era para "abanar" a barriga, que a preguiçosa deveria estar a dormir... Assim o fiz, ela mexeu-se, mas pouco, não reagia como o habitual.
Foi feita uma ecografia neste dia em menos de 5 minutos, perguntei ao médico se estava tudo bem, ele disse que sim, que se entretanto ela não nascesse, tinha consulta para o dia 01/04/2014...
No domingo, 30/03/2014, passei dia angustiada. Era DPP. Estava desejosa que ela nascesse, estava desconfortável, a barriga pesava imenso... Estava toda inchada e andava feito uma pata. Lembro de passar o dia no sofá a fazer festas na barriga e a dizer que já era hora dela nascer... Nessa noite tomei um banho quente, fui deitar-me triste e angustiada, não percebia o porque... Estava prestes a ser mãe, de uma menina, como sempre sonhei!
31/03/2014, um dos piores dias da minha vida. Tive contrações logo pela manhã, o pai manteve-se em casa até quase a hora do almoço para perceber se a coisa engrenava e tínhamos que ir para o hospital. Da mesmo forma que vieram, sumiram.
Fiz o resto do dia normalmente. Ao fim da tarde, por volta das 17:15, foi a última vez que a senti mexer. Enfiou-se por debaixo das minhas costelas, aquilo doeu e eu pedi-lhe para párar, que estava a magoar a mãe... E ela parou, para sempre.
Fiz o jantar, tomei banho, jantámos e aí comecei a achar estranho a ausência de movimentos.
O pai e eu tentamos de tudo. Barriga para cima, música, gatos, abanar a barriga... Nada. Tinha consulta no dia a seguir, mas decidimos ir ao hospital por descargo de consciência.
Eu sabia que algo se passava, mas nunca na minha vida podia imaginar que fosse algo tão mau...
Chegamos às urgências, até estava vazia, na triagem, quando tentaram apanhar o foco do coração dela, não conseguiram. Olhando hoje para trás, acho que ali eu já sabia... Mas era demasiado hediondo para acreditar. Puseram-me uma pulseira vermelha, outro mau sinal...
Mandaram-me para a ecografia e mal puseram o aparelho na minha barriga, confirmou-se o que eu já sabia... Não se via um coração a piscar. Não se via movimentos respiratórios. Ela estava parada, imóvel. A minha Nô havia partido.
Antes que a médica dissesse, pedi que chamasse o pai. Ouvimos a notícia os dois juntos.
"A vossa bebé não tem batimentos cardíacos, ela faleceu."
E o que se faz depois disso?! Como é que é possível?! Então, mas os bebés morrem dentro da barriga da mãe às vésperas de nascer?! Nunca ninguém me disse nada.
Não consegui chorar. Apeteceu-me urrar de dor, de revolta, de ódio. Porque a mim?!
Fui de imediato internada e vivi os piores momentos da minha vida... Dar a notícia à família. Não me esqueço do desespero da minha mãe e do marido dela ao telemóvel. Não me  esqueço da imagem do meu marido completamente desfeito a dar a notícia ao lado dele da família.
Não me esqueço de, quando me arrebentaram a bolsa, o líquido amniótico saiu e eu consegui ver a posição em que o corpo dela estava... Debaixo das minhas costelas. Culpei-me por pedi-la para párar... Culpei-me por não a ter protegido. Culpei-me por não conseguir passar a mão na barriga, no local onde o corpinho dela estava. Culpei-me por não ter ido antes ao hospital e ter insistido que ela não estava bem.
Nesse dia tive a minha mãe. A minha sogra. As minhas melhores amigas.
Às 17:10 do dia 01/04/2014, nascia a minha Leonor, adormecida. Não a vi. Senti o corpo dela por breves instantes tocar o meu, pois deixaram-na cair na maca no momento da expulsão...
A minha mãe viu-a. E querem saber de uma coisa? O nariz e os dedos longos eram de facto como os meus, mas os lábios eram do pai.
O que eu sou agora? A sombra de quem eu era. Dias melhores, dias piores, começamos a aprender gerir os sentimentos... Mas as saudades não. E nem o facto de ser definitivo. Fazem dois anos e meio que ela partiu, e eu não consigo habituar-me ao facto de ser definitivo. Não penso nisso muitas vezes, mas quando penso, apetece-me sair da minha própria pele, tal é a dor que me invade... Alguém mais sente-se assim?
Já sou mãe novamente, de um rapaz, que é a luz dos meus olhos 💙
Já ouvi de tudo, já aprendi a ignorar muita coisa e a defender-me também.
Não posso dizer que sou infeliz, porque não sou... Mas incompleta sim. Eternamente.

Beijinho da mãe Pipoca... Daqui até ao céu!... ❤️

Tainá"

link do postPor projectoartemis, às 14:20  comentar

 
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projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

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