20.12.17

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Tenho escrito um pouco, porque percebi que me ajuda. Hoje escrevo porque estou de novo grávida, muito apreensiva e assustada. Partilho um pouco da minha história dos últimos meses com vocês. 
 

29 de Julho de 2017

Faz hoje uma semana que saí do hospital de mãos vazias, de útero vazio... pela terceira vez. Mas desta vez é muito pior. A dor é muito maior. Eu vi a minha menina, era linda, tão pequenina, tinha 16 semanas, e pode parecer absurdo, mas parecia o pai a dormir. Nunca mais vou esquecer aquele rostinho. Estou triste e desiludida comigo porque não a abracei e agora já é tarde, não sei onde ela está, dizem que o corpo foi para autópsia. Naquela hora não temos cabeça para pensar em nada. Sinto que arrancaram um pedaço de mim e sei que nunca mais serei a mesma pessoa. Havia uma alegria em mim que era expontânea e agora desapareceu. Tento agarrar-me ao que a minha vida tinha e ainda tem de positivo: a minha filha, o meu marido, o meu trabalho, o projeto da casa nova, porque a vida não parou. Mas tudo o que é bom, o que acontece de positivo tem um sabor estranho, amargo...

1 Setembro de 2017

As dores fortes e as hemorragias ainda não pararam. A ecografia revela restos placentários e é marcada uma curetagem. Entrei no hospital de manhã e esperei até às 15.00h para entrar para o bloco. Não me lembro de mais nada a partir do momento que me injectaram a anestesia. Por volta das 19.00h estou de regresso ao quarto. A um quarto exactamente igual ao que fiquei no dia em que morreu e nasceu o meu anjinho. Não consigo dormir ali. Começo a sentir pânico e não consigo estar deitada, sentada ou de pé! Uma sensação de claustrofobia insuportável... não me lembro de alguma vez me sentir tão agitada. Chamo a enfermeira e exijo sair naquele momento. Sei que é uma loucura e corro enormes riscos, é contra as indicações médicas, mas saio mesmo, acho que perceberam que não me iam segurar ali contra a minha vontade. Chamo o meu marido para me ir buscar. Assino um termo de responsabilidade e eram quase 21.00h quando saio e meia zombie desço a via rápida do hospital de Braga ao encontro do meu marido... preciso de andar e sentir o ar da rua. Que alívio !

Também o meu marido nesse dia tinha estado no hospital. Estranhas dores de cabeça têm-no incomodado, os TAC’s e ressonâncias não revelam nada, os médicos dizem que deve ser stress. Não sabia que lhe tinham dado tranquilizantes. Sente-se sonolento e sem condições para conduzir. Ligo para todos os hotéis de Braga que conheço e estão esgotados porque é período de férias. Vejo-me sem alternativas e decido conduzir até casa. Peço a Deus que me guie nesta hora, porque também me sinto em péssimas condições para levar o carro por estradas apertadas e cheias de curvas, mas felizmente chegamos a casa sem contratempos. 

 

8 de Setembro de 2017

Vamos para fora do País durante uma semana. A ideia é nestas mini-férias tentarmos recuperar um pouco deste último golpe e ganhar forças e ânimo para prosseguir. Acho que temos feito tudo o que é humanamente possível para fortalecer a nossa relação. É juntos que temos de continuar. Sei que não tivemos culpa, embora nos sintamos constantemente culpados. Assinar um documento que termina com a vida da nossa bebé porque tinha Trissomia 21 e complicações cardíacas é algo que nunca iremos aceitar. É uma pena muito pesada e uma dor angustiante. Ninguém devia ter que passar por isto.

 

19 de Setembro de 2017

Voltámos de férias, regressamos aos nossos trabalhos e retomamos o projecto da casa que estamos a reconstruir. É algo que nos une e motiva. Também nos distrai, tanta agitação e problemas para resolver acabam por nos manter anestesiados e assim adormecemos a dor. Preferimos andar cansados e com a mente ocupada. Evitamos pensar ou falar no assunto.

 

4 de novembro de 2017

Existe sempre algo que nos arranca deste entorpecimento e hoje foi o dia. 

Somos convidados para um jantar de colegas de faculdade do meu marido. Um casal tem uma menina de quase 2 anos e o outro casal um rapaz de 7, muito amorosos e lindíssimos.

O jantar decorre animado, fala-se do passado, dos professores, das profissões e depois começam os relatos sobre os filhos... as gravidezes, os partos, as experiências de cada um deles com os seus bebés, até à altura em que alguém diz para o meu marido: “... tens que tentar pá! Não demores muito que já estás mais que na idade... isto dá trabalho mas é maravilhoso. Se pudesse tinha 3 ou 4!”

Sinto que levei um murro no estômago... esforço-me por ficar normal, mas tenho vontade de gritar que também nós temos 3 filhos (o Afonso, o Henrique e a Maria) só que são anjos e nunca poderemos sentir essas maravilhas com eles! 

Mas controlo-me e penso que tenho que agir com naturalidade para ninguém perceber o desconforto. É a primeira vez que os vejo, não exponho os meus sentimentos assim e não vou expor o meu marido, que está apático e sem reação. Silêncio absoluto da nossa parte. Acho que não dissemos uma sílaba durante todo o tempo em que a conversa prossegue neste tema, até uma das senhoras dizer que conhece um casal com vários filhos que adoptou uma criança com síndrome de down. O outro casal elogia a coragem e um deles diz com frieza: “eu se soubesse que ia ter um filho assim deficiente acabava logo com tudo! Desculpem lá mas é o que sinto!”

Outro murro, levanto-me com a desculpa de ir à casa de banho, sei que vai ser difícil conter as lágrimas e grito em silêncio: QUE NUNCA SAIBAS, QUE NUNCA SINTAS!!! 

 

6 Dezembro de 2017

Já estamos na casa nova. Depois de tantos meses de obras e complicações, chegou finalmente o dia. Parece ironia, mas a menstruação está atrasada quase uma semana e eu costumo ser certinha como um relógio suíço. Faço um teste: resultado positivo. 

Não festejamos como era costume e não fazemos planos. Negámos a nós próprios o direito de sentir qualquer felicidade, qualquer emoção. Depois de tudo o que aconteceu sinto uma angústia enorme só de pensar que posso ter que passar por tudo outra vez. Na última consulta de planeamento familiar a médica disse exactamente isso: “Se voltarem a engravidar, têm que estar preparados para mais más notícias.” O pior ou o melhor (nem sei) é que agora estamos, e o medo, esta nuvem negra, não nos abandona. O quartinho de bebé que projectámos está ali, mesmo em frente ao meu. Enchi-o de tralhas, evito imaginá-lo decorado com um bercinho entre as duas janelas como era meu sonho.

Este nó no estômago não passa e agora só peço que Deus nos ajude e nos dê forças!

 

Susana 



 
link do postPor projectoartemis, às 11:52  comentar

De Tânia Cunha a 20 de Dezembro de 2017 às 13:10
Susana desejo-te que tudo corra bem, eu sei o que sente. Passei por semelhante, sofri três abortos as pessoas que nos rodeiam não sabem lidar com esta perda, só quem passa percebe a dor. A minha 4º gravidez não foi fácil, tive positivo para trissomia 21, fiz amniocentese que a probabilidade de abortar era enorme, mas graças a Deus tudo correu pelo melhor, as 3 semanas de espera pelo resultado eram infinitas mas chegou o negativo. Tensão alta, o medo de acontecer outra vez era muito, a minha 1º gravidez o bebé parou a gestação aos 3 meses, havia muito medo que tudo voltasse a acontecer. Muitos nervos sempre, ansiedade pelas consultas para ver se estava tudo normal e a correr bem. Vários internamentos, no fim tudo correu pelo melhor tenho a minha princesa com 20 meses. A maior lição que tirei de tudo que passei foi, nunca desistir. Um enorme beijo e desejo-te tudo de bom.

 
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projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

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