16.11.16

image.png

"O meu nome é Flávia Arantes, ao fim de 4 anos e 10 meses finalmente acho que consigo dar o meu testemunho.

Em 2011 fiquei gravida do meu rei "Afonso" , foi uma gravidez cansativa mas correu tudo bem, mas no final já não aguentava mais, queixava me aos médicos que mal  conseguia andar! Na madrugada do dia 5 de Janeiro de 2012 comecei a ter contracções, então decidi ir logo para o hospital, tomei um banho e seguimos para o hospital, ao meio do caminho senti uma dor estranha, e senti que a minha barriga tinha subido, estava com dificuldades em respirar e vomitava muito. Eu senti logo que alguma coisa não estava bem. Ao chegar ao hospital as dores eram cada vez pior, mal consegui andar, entrei no consultório da médica, eu expliquei o que se estava a passar, ela disse que era normal era o trabalho de parto!

Fizeram uma ecografia e o toque, como só tinha 2 centímetros de dilatação a medica disse que podia ir para casa porque ainda era muito cedo, mandou me fazer as " cintas". Ao chegar à sala para fazer as cintas o enfermeiro ou auxiliar mandou me deitar, mas eu não conseguia, as dores eram horríveis não conseguia esticar o corpo( ele estava muito chateado por eu não fazer o que ele mandava), quando com muito esforço eu consegui, eu reparei que ela estava a olhar para mim com ar assustado e disse que ia chamar a médica!

A médica voltou e disse que íamos voltar a fazer uma ecografia, os 2 saíram da sala, e eu que nem conseguia andar, tive que me levantar e ir até a outra sala, fui amarrada à parede, não aguentava mesmo! ao chegar ao consultório fizeram me mais uma ecografia, e a médica estava muito chateada, ela mandou chamar outros médicos, enquanto me examinava eu senti um liquido a sair( a minha mãe depois disse me que estava lá uma poça de sangue) quando chegou outra médica, a médica que me estava a examinar disse:" isto não são batimentos de gente". Ela estava a falar do meu filho, com aquela frieza, e eu sem entender nada! elas falavam entre elas e eu não percebia nada, estava tão assustada e sozinha naquele momento. Entretanto vejo tanta gente a entrar, falavam alto, colocaram me numa cama. Eu estava em pânico, comecei a gritar a minha mãe entrou, sem saber o que se passava. Eu só pedia para salvar o meu filho, só isso! Só acordei passado 5 horas numa sala enorme e branca, vi o meu marido a chorar e ele disse me que o menino tinha que ir para o hospital do porto, para fazer um tratamento, claro que eu concordei logo. mas pedi para ver o meu filho,eles trouxeram-no, à minha beira. Ja estava preparado para seguir para o porto, estava numa incubadora, era lindo, enorme gordinho! A coisa mais perfeita.

Ele foi para o Porto, pedi ao meu marido para ficar com ele,nos 2 dias seguintes não me recordo de quase nada no hospital. No sábado de manhã pedi para me deixarem ir embora, queria o meu filho, queria sentir a pele e o cheirinho dele. Eles autorizaram a minha alta. Fui para o Porto, queria tanto ver o meu rei, ao chegar lá, vi tantas máquinas, tantos médicos, comecei achar que era grave. Lembro-me de chegar à beira dele e cheira-lo, ele cheirava a laranja, ainda hoje sinto esse cheirinho. O Dr. que estava responsável pelo Afonso levou-nos para uma sala, e ele explicou-me a situação do Afonso ( tive um descolamento da placenta, esteve muito tempo sem oxigénio), que o estado dele era grave, que o tratamento dele acabava na segunda feira de manhã, e se ele não tivesse melhoras nós íamos ter que decidir ( desligar ou não as máquinas)!

O meu mundo parou, congelei, não estava em mim, o meu mundo ia acabar. Eu perguntei ao médico que se eu não desliga-se as máquinas ele ia sofrer? ( eu sei que ele não ia ter qualidade de vida, e eu nunca mais podia ter uma vida, tinha que estar com ele 24 horas) mas eu só queria o meu filho, só isso! O medico disse que o Afonso ficaria em estado vegetal. Eu sei que é egoísmo da minha parte, mas eu não ia autorizar  desligar máquina nenhuma, eu não ia matar o meu filho. Sinceramente sempre achei que aquilo era só um susto e que ia sair de lá com o meu bebe. Passamos o dia ao lado dele, a conversar com ele. Na noite de sábado para domingo não dormi, não aguentava a dor, queria o meu filho nos meus braços. No Domingo pelas 7:30 da manhã o telemóvel do meu marido tocou, só de ouvir eu começei a gritar, eu sabia que alguma coisa se estava a passar. Eles disseram que o Afonso tinha piorado, e como tinhamos pedido para o baptizar, era melhor ir para  lá. O capelão ficou de batizar ás 10 horas, mas houve um atraso que tinha que ser ás 11 horas, enquanto esperava, falava com ele, dizia-lhe que o ia levar para casa. Odiava ver os pezinhos dele todos negros de tanto o picarem, dava-lhe lá muito beijinhos. Ás 11 horas chegou o capelão, pedi autorização para os meus familiares assistirem, aquele momento foi horrivel, não parecia que o estava a batizar mas sim a fazer uma despedida, no final estive com ele, dei-lhe um beijo, disse ao médico que tinha que comer alguma coisa que não me estava a sentir muito bem. Ao por o pé na estrada, senti algo horrivel, senti-me sozinha, vazia, o ar estava diferente, olho em volta e reparo que o meu marido a minha mãe tinham desaparecido, vi o olhar do meu sogro para mim. E senti naquela hora que o meu filho me tinha deixado, disse tantas asneiras, fiquei tão revoltada, só queria morrer só isso! Fui logo para a beira do meu filho, o Dr. disse que ele teve morte súbita, ao chegar ao pé dele, as enfermeiras estavam a tirar aqueles horríveis fios, pedi para pegar nele. queria tanto vê-lo a sorrir para mim, ver os olhinhos ele, mas ele estava tão quietinho. Tive o meu filho morto nos meus braços, beijei-o tanto ... tanto! Queria que aquele momento parasse e ficasse assim com ele toda vida nos meus braços.

O dia seguinte foi o funeral dele, foi o pior dia da minha vida o pior. Eu sou a mãe eu é que devia de ser enterrada por ele, e não eu a enterrar o meu filho. Ele estava frio, mas ainda tinha o cheiro a laranja.

Ele ja me deixou à  algum tempo, mas não sei o que se passa agora, choro todos os dias a pensar nele, o assunto Afonso sempre foi um tabu, ninguem fala dele comigo e eu tambem não falo com ninguem.

 

Mãe Flávia"

link do postPor projectoartemis, às 21:10  comentar

 
Espaço de partilha com objectivo de diminuir a falta de informação técnica e emocional a mulheres que vivenciam o luto da perda de um bebé ao longo da gravidez, bem como quebrar o Pacto de Silêncio resultante de todo esse processo de luto na Perda Gestacional.
Envie a sua questão
Este consultório online é um espaço onde pode colocar as suas dúvidas no âmbito da Perda Gestacional. Este Consultório tem um carácter informativo e o acompanhamento médico especializado por parte dos leitores não deve ser descuidado.

E-mail: projectoartemis@sapo.pt

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape
Direcção APA
projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

Contacto:
Telefone:938633707
E-mail: projectoartemis@sapo.pt
Site: www.facebook.com/associacaoartemis

Orgão Sociais
Direcção:
Presidente - Sandra Cunha
Vice Presidente - Patrícia Vilas Boas
Secretária - Andreia Neves
Tesoureira - Susana Rodrigues
Vogal - Marco Jesus
Assembleia Geral:
Presidente - Anabela Costa
1ª Secretária - Vanessa Mack
2ª Secretária - Sílvia Melo
Conselho Fiscal:
Presidente - Ricardo Fortuna
Vogal - Mónica Cunha
Vogal - Manuel Vilas Boas
Novembro 2016
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
17
18
19

20
21
22
24
26

27
28
30


arquivos
blogs SAPO