6.5.09

 

"Sonhei que também perdia o meu bebé. Sei que me afeiçoei a ela, vivi tudo com ela. Mudei a minha vida por ela. Comprometi tudo por ela. Dei tudo por ela. Já nem sabia viver sem ela. Era o meu sorriso, a minha força de vontade, o meu querer, o meu desejo, a minha fortuna, a minha busca, a minha razão de viver, a minha alegria, o meu esforço, o meu trabalho, o meu sonho, a minha vida, era eu mesmo, o meu pulsar, a minha respiração, o meu andar e o meu pensamento. Sei que teve de ser, mas é uma dor imperdoável, um castigo pelo que eu sou. É uma dor tão intensa, meu Deus. Sinto-me numa lama viscosa, num poço sem fundo e escuro por onde rolo ou caio num abismo que afinal nem sei se o construí. E dói, dói ser irreparável, irreversível. Não é uma mentira, é uma realidade da qual já não posso fugir. Sinto a perda como um conflito entre o desejo da posse, da existência ou da concretização de alguém e o não concretizar, definitivo, irreversível e irremediável, desse desejo. Sentido como fatalidade que me atinge violentamente, dispara-me um sofrimento mental e orgânico tão intenso que me paralisa e me surpreende, que se abate súbito sobre mim, sem eu contar, que me atinge, me fere e destrói. É um sofrimento que vive de um conflito interior, mental e violento, de emoções e sentimentos, onde refaço um percurso, avalio os actos e as consequências, à procura das minhas falhas, dos meus erros e das minhas culpas, e procuro mil e uma soluções, compromissos, cedências, mentiras, desculpas, eu faço tudo para o tentar impedir, mas afinal já aconteceu."
                                                                                                Drº. Mário Sousa,  In Pacto de Silêncio

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6.4.09

 

Quando penso neste vocábulo - Perder - revejo inúmeras sensações, quase todas de cariz negativo. A própria palavra já carrega um som árduo, um cheiro amargo que permite sentirmos um rasto profundo de vazio.

Ninguém gosta de perder, pelas mais variadas razões, a principal delas: ficamos vulneráveis à nossa principal condição de impotência. Há coisas que não dominamos, coisas que nos fogem ao controlo, mesmo após uma árdua luta de posse, mesmo como resultado de uma grandiosa capacidade de acreditar.

Quando nos debruçamos sobre esta palavra - Perder - percebemos que já todos a vivemos, uns de forma mais cruel, outros de forma mais súbtil ou menos dura, mas jamais indiferente.

Perder é aquela palavra que pretendemos nunca referir, pretendemos tê-la longe dos nossos projectos, do nosso presente e futuro, principalmente se a vivenciámos num passado.

 

Perder é algo dramático, mesmo que seja a mais insignificante das situações, perder implica consciência, um assumir da nossa fragilidade peranto algo ou alguém, perder simboliza que falhamos, mas se há perdas que se desvanecem pelas cinzas do tempo, outras há que se transformam no nosso "Adamastor".

 

Há quem diga que nunca perdeu e substime todas as perdas dos outros, há quem tenha perdido, mas que julgue por fracos quem sofre ainda por uma perda, há quem não esqueça uma perda e aponte o dedo a quem chore por ter perdido. Talvez sejamos egoístas, ainda, o suficiente para não querermos saber das perdas dos outros, mas insistimos num altruísmo idiota, quando pretendemos sapientemente (julgamos nós) minimizar o sofrimento inflingido de uma perda a alguém.

Saiba que a dor ignorada, aumenta ...

Torna-se voraz....

Transforma-se em veneno...

Transmite raiva ....

Subjuga uma culpa....

 

Na Perda Gestacional, a perda consome qualquer forma de vida que ainda lateje na nossa alma.

Na Perda Gestacional, ignorar a perda de quem a vive é perder a oportunidade de compreender e dignificar quem perde e o que se perdeu.

 

 

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Espaço de partilha com objectivo de diminuir a falta de informação técnica e emocional a mulheres que vivenciam o luto da perda de um bebé ao longo da gravidez, bem como quebrar o Pacto de Silêncio resultante de todo esse processo de luto na Perda Gestacional.
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projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

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