24.3.09

Boa tarde,

 

Primeiro que tudo, quero dar-vos os parabéns. É confortante saber que existe um projecto que se preocupa com a perda gestacional que, infelizmente, é tão banalizado pela sociedade portuguesa, como beber um café com os amigos na pastelaria da esquina! Peço desculpa se pareço fria, mas é verdade!
 
A 21 de Novembro de 2008 perdi o meu bebé com 7 semanas de gestação e fui tratada como um animal. Pior até, pois tenho animais e de todas as vezes que fui ao veterinário eles tiveram melhor atendimento.
 
Ás 5 semanas de gestação comecei com algumas perdas de sangue. Quando me dirigi pela 1ª vez ao hospital disseram-me que as perdas não eram significativas e que o pior que me podia acontecer era abortar. Apeteceu-me bater na médica. Pois claro que era a pior coisa que me podia acontecer. E, que tal a Dra. me dizer o que estará ao meu alcance para evitar isso? Respostas não obtive, nem aconselhamentos, nem uma palavra de conforto! Esta Sra., que foi a que mais me espantou, dado que estava perante uma pessoa que fez um juramento, uma médica. Desde o momento que entrei no seu gabinete que me tratou como um objecto, ao ponto de me fazer levantar da maca para recolher as minhas calças e as minhas cuecas, que tinham sido colocadas em cima de um banco que estava num canto do gabinete e que eu pensei ser o local certo para que colocasse os meus pertences, pois não era o lugar certo e ela não era minha criada para o fazer por mim! Palavras para quê? Enquanto me estava a fazer a ecografia continuou uma agradável conversa com a sua colega do lado, sobre, supostamente, "todo o mulherio do hospital ter decidido parir naquele instante, pois elas que se amanhassem que ela estava ocupada e depois de acabar comigo iria jantar!" Palavras para quê? Ainda hoje não percebo como não fiz queixa daquela Sra.
 
O enxerto acima foi só para dar um pequeno exemplo de como as mulheres são tratadas quando estão perante uma iminente perda gestacional. É como se nada fosse.
 
Peço desculpa pelo testamento, mas a minha indignação é enorme!
 
O que me traz hoje aqui é uma grande dúvida.
 
Descobri recentemente que estou grávida, pelas minhas contas de 5 semanas e alguns dias. Só tenho consulta com a minha ginecologista dia 7/04 e estou apavorada. Tenho medo que me aconteça de novo. Qualquer sintoma, qualquer dorzinha, penso que me vai acontecer alguma coisa de mal. Parece que vou enlouquecer!
 
Com quem posso falar? Quem me pode ajudar numa situação destas?
 
Obrigada!
Angel
 
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20.3.09

         

 

    " Mulheres que geram, mas que não dão à luz...É quase uma antítese, um paradoxo. Não é possível, quem gera, tem que dar à luz! Ou teria que dar à luz. Ou deveria dar à luz. É confuso, não é? E são só palavras…quando deixamos estes singelos jogos semânticos e vivemos a realidade que eles espelham, podemos sentir o colapso de uma ilusão, o desmoronar de um ciclo, a morte da liberdade da alma.

            Este é o reverso da moeda, o outro lado da gravidez, o fantasma da maternidade – O Aborto."

                                                      Excerto retirado do livro "Pacto de Silêncio"

 

 

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Espaço de partilha com objectivo de diminuir a falta de informação técnica e emocional a mulheres que vivenciam o luto da perda de um bebé ao longo da gravidez, bem como quebrar o Pacto de Silêncio resultante de todo esse processo de luto na Perda Gestacional.
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projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

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