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"Pergunto-me todos os dias porquê eu??!" - testemunho

Sexta-feira, 16.09.16
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"Olá sou a Débora e tenho 29 anos.

Sou casada temos um filho com 9 anos.

 

 Em 2012 decidimos que estava na altura de dar um maninho ou maninha ao nosso filho. Pois bem, demorou um pouco mas em 2013 estava gravida, feliz e realizada. Tudo corria maravilhosamente bem (tirando os enjoos),as 12 semanas na primeira ecografia viu se logo que séria mais um Rapaz, para alegria do Pai que só quer menino, vinha ai o nosso Robim. As 18 semanas tive uma perda de sangue e fui a correr pro hospital. O médico que me atendeu apenas me fez um toque e disse se que teria uma infecção no colo do útero e receitou me um antibiotico. No outro dia assim que tomei o antibiotico já não conseguia fazer nada só tinha sono e sono.. e o sangue nao parava. Como era seguida numa clínica privada liguei a minha medica e ela quis me observar.. pois bem tinha um descolamento grave da placenta.

La fui eu pra caminha so me podia levantar pra ir ao WC nada mais. O sangue comecou a parar e estava quase boa. Tive 3 dias sem sangrar mas ao quarto dia antes de me deitar.. parecia uma torneia, tal era a quantidade de sangue. Fui a correr pro hospital. Na eco viram que o bebé estava bem, mas tinha perdido todo o liquido amniótico. Estava com 19 semanas e 5 dias. Não havia hipótese nenhuma dele sobreviver.  Foi a pior decisão da minha vida, assinar a morte de um filho. Porque foi isso que senti! Senti que o estava a matar. 

Foi horrivel, as dores, o parto natural sem epidural sem nada. 

Acho que o pior é quando voltamos a casa e temos que encarar toda agente... encarar a nossa casa, as coisinha que ja tínhamos para ele, a falta de algo na nossa barriga, a subida do leite... Doi tanto.. 

Luto... não fiz, não consegui... não consigo. É dificil aceitar algo inaceitável.

Passado um ano decidimos que iriamos fazer inseminação. Porque não houve explicação pro que aconteceu. As análises ao bebé e a placenta não revelaram nada. Mas consequência ou não deste parto fiquei com líquido na trompa esquerda e tive que a tirar.

De 2014 ate aos dias de hoje ja fiz 2 inseminações das quais 3 transferência.  Entre e penultima e a ultima voltei a engravidar naturalmente e foi um misto de felicidade e medo. Felicidade essa que apenas durou uns dias. Novamente perda de sangue e o medo voltou. Gravidez etopica e por consequência perda da trompa direita.

Levantar novamente a cabeça e acreditar. Nova inseminação, desta vez eram 2 embriões. E mais um negativo.

Pergunto me todos os dias porquê eu??! 

 

Resumindo: 29 anos, 2 perdas gestacionais, perda de 2 trompas e 2 inseminações negativas. 

 

Um beijinho enorme a todas que passaram por isto.

 

Eu não quero ter mais um filho, quero gerar mais um filho 😙

 

Obrigada 

Débora Navalho Silveira"

 

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publicado por Associação Projecto Artémis® às 14:48

"o coração do meu menino já não batia" - testemunho

Quinta-feira, 15.09.16

 

Hoje chegou-nos mais um testemunho, obrigada Susana pela partilha.

 

"Sou a Susana tenho 30 anos e sou mãe de dois Anjos. Casei aos 20 anos e decidimos logo engravidar, o meu marido já tinha uma filha com 2 anos que desde bebezinha considerava como minha e queríamos logo lhe dar um maninho. Durante 5 anos tentei engravidar sem sucesso. Consultas, exames tudo vinha como tudo estava bem não havia motivo para não conseguir engravidar. Então em Outubro de 2010 desisti, senti me derrotada. Em Fevereiro de 2011 Descubro uma ferida no colo do útero e um quisto também no útero, pelo menos foi o que o médico tinha dito. Em Abril de 2011 numa ecografia para ver o suposto quisto é me dito que estou grávida de 9 semanas e 6 dias. Já no fim do primeiro trimestre e sem saber. Era um menino, o Gabriel. Tudo estava a correr bem até ao dia 3 de Agosto com 27 semanas começo com contrações foi logo para o hospital onde me foi dito que o coração do meu menino ja não batia. Fui enviada para casa e voltar no dia seguinte para provocar o parto. Não aguentei a noite e o meu bebé nasceu em casa no dia 4 de Agosto as 5.30 da manhã. O resultado da autópsia foi que eu tinha tido tromboses na placenta.
Eu própria passado 15 dias do parte tive uma tvp foi me diagnosticada trombofilias, poderia voltar a engravidar. Assim foi, no dia 4 de Agosto de 2012, exactamente um ano depois do nascimento do meu Anjo Gabriel descubro que estou grávida novamente. Foi um grande misto de emoções. Mas infelizmente ser mãe sem ser de coração não é para mim, pois no dia 8 de novembro tenho exactamente a mesma notícia. Ia ser mãe de outro Anjo, outro menino, o meu Anjo Daniel. Tenho uma filha de coração que é minha com todo o meu ser. Infelizmente não vou poder voltar a engravidar, mas para toda a vida sei que sou mãe da minha filha de coração e de dois lindos Anjos que estarão sempre dentro de meu coração, do pai e da mana que hoje com 13 anos diz sempre que tem dois irmãos que são anjos.

Obrigada pela oportunidade
Susana Costa"

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publicado por Associação Projecto Artémis® às 15:14

"A maioria não entende que eu fui mãe sim!" - testemunho

Terça-feira, 13.09.16
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"Não sei porquê mas hoje apeteceu-me partilhar a minha...

 Aos 27/28 anos estava casada e com uma grande vontade de ser mãe.

Nunca quis ter muitos filhos, nem ser mãe muito nova... Talvez por ser filha única e a minha mãe ter apenas mais 18 anos do que eu.

Mas naquele momento achei que era o momento. 

Começamos a tentar... o tempo foi passando e nada.

Fiz uma série de exames e estava tudo bem.

Lá vêm as frases célebres de que quando deixasse de pensar ia acontecer! 

Andei uns anos em consultas de infertilidade e nada.

Estava tudo bem. 

Já muito farta, resolvi por sugestão de uma amiga consultar uma outra médica. 

Fui e levei os exames todos que tinha feito.

Ao entregar os exames a médica diz que faltam os exames do meu marido...

Ao que respondo que ele não tinha feito quaisquer exames! 

(A sociedade portuguesa ainda achava que a infertilidade era sempre feminina mesmo quando era uma medica!) 

Para não perdermos mais tempo a médica mandou-me para casa, ter relações essa noite e ir lá na manhã seguinte. 

Quando regressei (sábado de manhã) a médica constata que não existiam espermatozoides vivos dentro de mim... 

Fiz 3 inseminações que não resultaram pois a quantidade e qualidade dos espermatozoides não era suficiente para engravidar. 

Dei entrada na lista de espera de Sta Maria para fazer uma ICSIS. (FIV mas com causa masculina).

 Entretanto em Maio de 2007 sou chamada.

Tinham passado 7anos desde o momento que desejei ser mãe. 

Depois da tortura de me auto-injectar  4 vezes ao dia, mais análises e idas ao hospital diárias chega o dia de colocar os embriões! 

Estava tão feliz....sentia que ia buscar o meu bebé!

E fui... engravidei logo!!! 

Nunca me senti tão feliz na minha vida... Tão preenchida! 

No dia em que fiz 35 anos estava grávida, casada com o homem da minha vida (conhecemo-nos aos 15 e começamos a namorar aos 18).

Tudo parecia perfeito!!! 

Pouco depois começo a ter algumas complicações que me obrigaram a repouso absoluto e no dia 12 de Novembro perdi o MEU FILHO! 

Não vos consigo descrever o sofrimento. 

Cheguei a ter aquela aguadilha tipo leite, talvez por causa dos tratamentos.

Tive uma hemorragia tal que tive que assinar um termo de responsabilidade para não levar uma transfusão, claro que fiquei com uma enorme anemia. 

Já para não falar da descompensação hormonal... 

No dia em que fiz os 36 anos estava sem filho e sem marido que entretanto decidiu que queria outra vida para ele. 

Se tivesse corrido tudo bem, o meu Salvador teria feito 8 anos em Maio.

Entraria agora para o 3º ano. 

È engraçado como nas mais pequenas coisas me recordo dele... 

Hoje é porque é o regresso às aulas e eu penso como teria sido! 

A tristeza e mágoa relativamente ao meu ex-marido passou.

Acredito que não fez por mal, nem com intenção de me magoar, apenas não soube lidar com toda aquela tragédia e acho que se sentiu culpado. 

A tristeza e dor da perda do meu filho essa será para sempre!

Não consigo falar deste assunto sem chorar, não consigo ouvir uma ecografia e o som do coraçãozinho a bater sem chorar.

 

Fui bem tratada em Sta Maria. Não tenho nada a dizer, mas não me esqueço quando o médico diz que se assim foi é porque o embrião não era viável. 

Para ele seria um embrião... Para mim era, é e será sempre o meu filho!

Depois disso nunca mais engravidei.

 

Esta é a minha  história... mas que partilho e sobretudo com este grau de detalhe com muito pouca gente. 

A maioria não entende que eu fui mãe sim!

Mesmo que só por um bocadinho... mas o sentimento, esse será para sempre!

 

 

Um beijinho da mãe Ana..."

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publicado por Associação Projecto Artémis® às 11:56

"Não consigo apagar esta dor" - testemunho

Segunda-feira, 12.09.16

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Mais um testemunho de uma mãe, que perdeu o seu bebé no 1º trimestre de gravidez.

Obrigada Sofia.

"Gostava de partilhar convosco a minha história , ainda não é muito fácil para mim  falar pois é bastante recente.
Descobri que estava grávida pela minha 3ª vez, já tenho 2 filhos maravilhosos que me enchem as medidas mas por algum motivo Deus quis me presentear com um novo filho, não foi muito fácil aceitar um 3ª gravidez pois o meu filho mais novo tinha apenas 3 anos e era muito apegado a mim, não vou ser hipócrita e dizer que fiquei logo feliz pois não é verdade chorei bastante quando soube mas depois eu e o meu marido pensamos que realmente é porque tinha que ser assim já mentalizados e cada vez mais felizes estavamos novamente gravidos .
Achamos por bem esperar e confirmar se estava tudo bem antes de contar alguém , la fui eu à MJD de urgência confirmar a gravidez e o tempo que estava. E la estava eu novamente e o mais engraçado com o mesmo médico que me acompanhou na gravidez do meu filho mais novo e confirmava-se estava grávida o coração batia e eu radiante a ver aquele pequenino ser  estava com 6 semanas e uns dias lá me deram as vitaminas todas e marcaram-me a consulta para ser lá seguida visto que foi lá que tive os meus filhos.
E não sei porque decidi que ainda não o ia dizer a ninguém que estava grávida. Aproxima-se o dia dos avós e ia dizer aos avós nesse dia nem os meus filhos sabiam ia ser um surpresa para todos.
A meio da semana senti muitas dores no fundo da barriga nas costas mas deixei andar podia ser o meu corpo com algumas alterações. Um dia à noite fui ao shopping comprar umas calças visto que as minhas já era, já nem apertavam experimentei imensas e quando ia comprar as que gostei ia para a caixa e não sei porquê algo me disse que era melhor ir ao médico que algo não estava bem. Deixei ficar lá as calças e fui à urgência da MJD ver se estava tudo bem se aquelas dores eram normais. Quando sou chamada lá vou eu e claro fazem logo a eco para ver e vejo que o médico fez assim uma cara estranha pediu-me para esperar que ia chamar o chefe de urgência vem o chefe de urgência abana a minha barriga e num tom muito frio diz-me  infelizmente o seu feto esta sem batimento cardiaco vamos dar inicio ao protocolo para o explusar visto que não tem viabilidade naquele momento o meu chão caiu e eu fiquei sem reação não chorei apenas me arranjei e voltamos a falar sobre o protocolo .
Fui para o carro e liguei ao meu marido porque ele nem sabia que tinha lá ido porque estava no shopping. Quando lhe ligo a dizer nao aguentei chorei chorei chorei ate nao poder mais porque me aconteceu isto porque o que fiz de errado porque a mim ele do outro lado com uma voz muito meiga disse-me tem calma vem para casa tudo se resolve estou aqui para ti para te ajudar não chores mais.
Não foi fácil, nada fácil .
Como sou bastante teimosa decidi ir pesquisar à net e vi que algumas pessoas com 6 semanas não se consegue ver o batimento cardíaco, achei por bem pedir um segunda opinião e ver novamente se o meu bébé realmente não tinha batimento passei um noite horrível a chorar.
No dia a seguir à noite decidi ir à urgência do hospital São João e pedir outra opinião.
Quando lá entrei o meu coração ia tão, mas tão apertado que nem as palavras me saiam. Lá fiz a ficha e chamaram-me a Dra  Ana Sofia Fernandes muito meiga muito doce comigo. Contei-lhe o sucedido e a Dra muito meiga disse-me vamos lá ver como é. Mais uma vez o coração apertava cada vez mais, a Dra la me deu a triste notícia confirma-se minha querida não tem batimento mas vai ver que daqui a nada volta a ficar grávida e vai correr tudo bem ainda é tão nova.
Não aguentei e chorei como se não houvesse amanhã, o meu marido agarrado à minha mão suada apertava-me com força e lá demos início ao protocolo .
Vim para casa,  só daria início no sábado que era quando a Dra estava na urgência.
... lá fui eu no sábado de manhã ao hospital de São João cheia de medos porque não sabia o que ia fazer. A Dra chamou-me explicou-me tudo como era. Lá fui eu pôr os comprimidos na vagina e passado 48h voltava laá para ver como estava. Ia ter uma noite horrível pelo que ela me disse.
Viemos embora, ainda fui fazer umas compras só comecei a sangrar durante a noite e tive um noite mais ou menos com a saída de bastantes coágulos e eu a pensar que ja tinha expulsado. Passado 48h fui lá novamente e a Dra voltou a avaliar e ainda não tinha explusado nada eram apenas coágulos, voltou a pôr novamente outra dose de comprimidos e ia lá passado 72h .
Passei outra noite horrível com muita perda de sangue, não me sentia nada bem, o meu marido ainda queria ficar em casa comigo e eu disse que não valia a pena, infelizmente a meio da manhã tive que lhe ligar para vir a casa porque estava a sentir-me mal. Fui novamente à urgência e o embrião ainda não tinha saído, estava no caminho de saida por isso tinha tantas dores e perdia muito sangue. Deram-me lá uma medicação para as dores e alta quando estava para vir para casa desmaiei não sei o que me aconteceu nunca tinha desmaiado o meu marido ficou em pânico, quando acordei só vi a cara dele tão branca e a dar-me sapatadas na cara a chamar por mim, já rodeada de enfermeiros e a médica.Passado umas  boas horas vim embora.
Mais um noite a sofrer não pelas dores mas pela dor interior que tinha.
Quando fui para ser reavaliada novamente o embrião ainda não tinha saído e tinha que ir ao bloco... entrei em pânico naquele momento.
O meu marido só olhava para mim, apertava-me a mão e dizia-me estou aqui contigo.
Lá deram inicio ao processo para ir para o bloco, fui arranjar-me e infelizmente para mim fui parar à sala de expectantes... eu estava ali para fechar o meu processo de luto e aquelas mulheres para o melhor momento das suas vidas.
Chorei, chorei, não conseguia conter as lágrimas... lá fui eu para dentro e eu meu marido deu-me um beijo e um abraço tão apertado e disse que estou aqui à tua espera... amo-te .
Entrei para o bloco a chorar e as emfermeiras, anestesista diziam-me não chore isto vai já passar, é tão nova... daqui a nada está aqui novamemte para ter o seu bébé, e adormeci a chorar... o pior momento da minha vida ia acabar e não ia sofrer mais.
...acordo e já tenho o meu marido ao meu lado e a enfermeira a dizer que correu tudo bem.
Lá vou eu embora ao fim do dia ainda grogue .
O meu marido sempre preocupado comigo foi sem dúvida o meu grande apoio, pensei que tinha acabado mas infelizmente fiquei com anemia, ainda não estou a 100% à espera que isto tudo volte ao normal. Hoje ainda choro... não com a mesma intensidade mas choro... não consigo apagar esta dor .
Apesar de ter dois filhos maravilhosos que amo muito mas ainda hoje me faz confusão ver grávidas.
Fico à espera de estar bem e poder voltar a engravidar e espero que seja bem sucedida .
Beijinhos Sofia Pereira ❤"

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publicado por Associação Projecto Artémis® às 11:45

"Não voltarei a ser a mesma pessoa, nunca mais!" - Testemunho

Sexta-feira, 09.09.16

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Hoje recebemos um email de uma mamã que já perdeu à algum tempo e que quis partilhar o relato de um diário que foi escrevendo após a sua perda.

Obrigada Sofia pela partilha tão intensa. 

"Tudo está escrito noutros tópicos. Já todas leram. Contudo, desde o dia que soube que o meu bebé tinha um problema, resolvi escrever um diário. Acabei de o escrever hoje e gostaria de aqui deixar o meu testemunho. É extenso! Quem o conseguir ler até ao fim é uma corajosa! Obrigada a todas!

Soube que estava grávida mesmo antes de ter qualquer atraso, a azia não engana! E comecei a tê-la no 22º dia de ciclo. Fiz o teste dia 29 de Janeiro 2012 e já esperava o resultado POSITIVO! Começava naquele dia a minha caminhada para o meu 3º filho. Decidi viver esta gravidez dia a dia, pois tinha a convicção de que seria a última.
Fui marcar consulta com a minha médica à MAC. A 1ª consulta, dia 28/02. Saí de lá com o meu livrinho de grávida e com ecografia feita para determinar o tempo exacto de gravidez e se o embrião estava bem implantado! Tudo bem! Rapidamente escolhemos nomes: Santiago se fosse rapaz, Margarida se fosse menina. Eu sempre tive o feeling, desde o positivo que era rapaz e logo o comecei a tratar por Santiago, embora em tom de brincadeira ía dizendo que se fosse menina teria muito que me desculpar!
Dia 26 de Março fiz as análises para o rastreio do 1º trimestre e dia 3 de Abril fui fazer a eco do mesmo rastreio. Assim que o médico coloca a sonda vejo o meu bebé a fazer “bolinhas de sabão” e as mãozinhas abanavam como se estivesse a dizer-nos http://r12.imgfast.net/users/1211/32/93/76/smiles/94401.gif, estou aqui!
A primeira medida que o médico resolveu tirar foi a da TN e aqui começou o pesadelo: 7,9mm, ou seja, muito acima do limite máximo que é 2,5. Em qualquer texto sobre TN falam até aos 6,5 e são bebés com problemas. Mais do que isso é um absurdo! O resto estava bem!
Sai do ecógrafo e fui à consulta de DPN (diagnóstico pré natal). Enquanto esperava na sala de espera ia vendo o relatório da eco que dizia que o rastreio era positivo com probabilidade de bebé com trissomia 18 de 1/8. Mesmo assim não desanimei e disse ao meu marido:” Vais ver que estamos nos outros 7.”
Entrámos na consulta e a médica, sem rodeios disse: “ este é um bebé com problemas! A TN está muito elevada e além disso, o líquido que se acumula na nuca vai se espalhando à volta de todo o cérebro. As suas análises tb têm valores baixos! Vamos fazer uma biópsia das vilosidades coriónicas, se quiser, mas pelas imagens ecográficas estamos na presença de um bebé ou com trissomia 18 ou com síndrome de turner (em que só tem cromossoma x). Ambas as malformações são incompatíveis com a vida.
Nesta altura eu já chorava, de mão dada com o meu marido. Concordámos em fazer o exame rapidamente e o médico, Dr. Álvaro Cohen disponibilizou-se para me fazer o exame dentro de 15 minutos.
Deitei-me na marquesa cheia de medo e disse isso mesmo ao médico, também para ver se aliviava o ambiente. O médico respondeu: “isso não lhe posso tirar!” com um tom seco e bruto. Depois começou o exame e aqui começou a explicar o que fazia…primeiro a picada da anestesia local…depois a picada da agulha e eu sentia a pressão da agulha a furar os tecidos. Não é muito doloroso mas sempre doí um bocadinho. Quase no final ainda lhe disse entre uns ais: “ Dr, se eu fosse mais magra era bem mais fácil, não era?”, “Muito mais” respondeu ele. Terminou, retirou a agulha e com um tom mais doce lá me disse: “Portou-se muito bem”. Ainda nos mostrou no frasquinho o que eram as vilosidades da placenta.
Depois a enfermeira veio dizer-me o que iria sentir e que seria normal como cólicas e podia mesmo sangrar um pouco. Devia repousar 48h e só me levantar para comer e ir à casa de banho.
Vim para casa e pensei:” Porque tenho de fazer repouso se é um bebé inviável?” Sejamos realistas, com todos estes factores juntos, a probabilidade de ainda assim ter um bebé saudável é inferior a 1%.
Apesar de estar mentalizada para o pior, dou por mim, na presença de uma estrela cadente a pedir para o meu bebé ser saudável e isto não passar de um terrível engano.
Neste momento, estamos a dia 7 de Abril e espero os resultados da biópsia. Era suposto estarem prontos dia 5 mas com a notícia de fecho da MAC nesse mesmo dia, acho que os funcionários esqueceram-se de trabalhar. Dia 9, segunda-feira, vou à Mac saber os resultados.
Até agora, descobri que o dia 3 de Abril é um marco em todas as minhas gravidezes. Na gravidez do Miguel, foi o dia em que fui internada para ele nascer a 16 do mesmo mês. Na gravidez da Mafalda foi o dia em que saí da maternidade com ela nos braços; agora foi o dia em que soube que o meu bebé tinha problemas.
O que custa mais???? Ter visto a imagem do bebé a fazer bolinhas, a acenar as mãozinhas, ouvir o seu coração. Dia 6 de Abril senti mexer pela primeira vez. Isto custa muito! Se 95% das trissomias 18 terminam em aborto espontâneo porque razão este bebé continua agarrado a mim????
Dia 9 continuarei a escrever……
Hoje, dia 9/4/2012, fui direita à MAC assim que saí da empresa. Cheguei lá pelas 11h. Assim que cheguei à consulta de DPN, disse a uma enfermeira o que pretendia e esta respondeu-me: “Ia ligar-lhe agora mesmo! Mas as notícias não são as melhores!” eu só perguntei: “ É a 18 não é?”, “Sim” disse ela. A seguir marcou-me consulta para Quarta-Feira, dia 11 a fim de se fazer o pedido formal de IMG, depois, reúne uma comissão na Sexta-Feira dia 13 para deliberar os pedidos e só serei internada na semana seguinte.
Apesar de estar à espera deste resultado, desatei a chorar mesmo à frente da Enfermeira. Meu Deus! Eu estou a gerar um ser que nunca vai nascer.
Desci ao 1º piso e fui procurar a Dra. Isabel Nogueira, já que tinha consulta amanhã e não faz muito sentido lá ir. Encontrei-a quando vinha dos internamentos e pedi-lhe 2 minutos e mais uma vez desatei a chorar. Agarrou em mim e sentou-se comigo numa das cadeiras do corredor…expliquei o que tinha acontecido….deu-me força: “infelizmente acontece…..mas não pode desistir…continue o seu caminho….vai ter um 3º filho!”
Disse-lhe o que realmente penso e me ajuda a erguer a cabeça. É de um extremo egoísmo pensar que só acontece aos outros. Pensar ou dizer: “Eu não mereço isto”. É verdade, não mereço mas quem merece???? E o que eu sou mais que as outras para eu não merecer e calhar às outras tamanha tristeza???? A natureza é assim, as coisas acontecem, as estatísticas existem. A probabilidade de gerar um filho com trissomia 18 é de 1 em cada 8000. Pouco provável portanto. Bolas, mas tem que calhar a sorte grande a uma desgraçada entre 8000 para a estatística existir e desta vez fui eu a infeliz contemplada.
Outra das coisas que me ajuda a erguer a cabeça é o facto de ser trissomia 18, incompatível com a vida. Bem pior seria se fosse trissomia 21 e eu ter que escolher se queria ter ou não um filho deficiente. Certamente escolheria não ter! Mas talvez ficasse com um peso maior para o resto da vida porque tinha decidido sobre a vida de um ser. Teria eu esse direito? Neste caso, nem se coloca essa questão. Simplesmente não tenho opção.
E é isto que me faz seguir em frente.
Contámos à Mafalda hoje. Com 3 anos, não tem noção do que é a morte. Optámos por lhe contar outra história….os médicos são tontos, porque disseram que havia um bébé dentro da barriga da mãe e afinal não há. A mamã tem um doi-doi grande dentro da barriga e os médicos pensaram que era um bébé. A mamã vai ter que ir ao hospital 2 dias para tratar o doi-doi.
Disse que estava um bocadinho triste mas não voltou a falar no assunto.
O meu filho também está triste. Segunda-Feira, dia 16 faz 16 anos e não sabe muito bem como lidar com tudo isto. Eu tento desvalorizar e dizer-lhe que pior era descobrir que ele ou a irmã tinham uma doença grave. Ainda não me viu chorar!
Dia 11/04 fomos à consulta. Na sala de espera estavam imensas grávidas e confesso, a sua felicidade custa-me. Não lhes desejo mal nenhum, simplesmente preferia não me cruzar com grávidas nesta altura
Na consulta, assinei o pedido de IMG. O meu marido vinha danado porque não é tido nem achado, não assina nada, ninguém lhe pergunta nada! Aqui só existe a mulher grávida!
A médica explicou-me que, em princípio, na 2ª feira dia 16 vou à MAC tomar um comprimido que prepara o útero (fui ler e o que li é que este comprimido serve para “matar” o feto), e depois, dia 18 sou internada para fazer a medicação vaginal e normalmente, a maioria das mulheres expulsa o feto nesse dia à noite. Se tudo correr bem sairei no dia seguinte!
Dia 13/04 a enfermeira liga-me para me dizer que a comissão não iria reunir naquele dia mas que tentaria tudo para que eu iniciasse o processo dia 16. A ver vamos.
Choro todos os dias. Tenho fases ao longo do dia. No carro, entre a visita a um cliente e outro choro por baixo dos óculos escuros. Quando chego à porta do cliente, limpo as lágrimas, respiro fundo e lá vou eu com um sorriso nos lábios e o coração vazio!
Em casa tento mergulhar nos livros, já que vou ter os exames da Ordem no final do mês. Aconselharam-me a suspender o estágio (colegas) mas entendi que não, quanto mais tempo estiver ocupada menos penso, menos choro, mais depressa o tempo passa, mais depressa a dor é atenuada. Não sei se será assim mas é o que penso agora.
Dia 16, estava a estacionar o carro à porta da MAC para ir saber novidades e o telefone toca. Era a enfermeira a pedir-me que fosse lá tomar o comprimido. Fui! Tomei o comprimido sem pensar muito no que estava a fazer e combinámos o internamento para dia 18 às 11,30.
Dia 18 já não trabalhei. O meu marido levou os miúdos à escola às 8 da manhã. Eu fiquei em casa a arrumar a minha mala, a fazer a cama de lavado, a inventar coisas para fazer porque não conseguia estar parada. O meu marido chegou e saímos logo de casa eram 9h. Fomos tomar o pequeno almoço e ainda era muito cedo. Fomos passear para as Amoreiras. Parecíamos uns tontos, a passear num centro comercial às 9:30 da manhã! Lá fizemos tempo e fomos para a MAC.
Quando cheguei ao serviço de DPN, estava lá à porta a minha amiga Sofia Rubina para me dar um beijinho. Fomos ter com a enfermeira e mandou-nos esperar. Pouco depois mandaram-nos para uma salinha, sozinhos onde teríamos que continuar à espera já que não havia médico no DPN naquele dia e pediram a uma médica do Alto-Risco para me fazer o internamento. A médica pediu que eu fosse ter com ela à consulta mas o Dr. Álvaro Cohen que estava nas ecografias e no gabinete ao lado daquele em que me encontrava não deixou. Segundo ele, eu, que ía fazer uma IMG tinha que ser resguardada e não esbarrar em grávidas a todo o momento. Um lado humano que eu não conhecia neste homem. Ainda saímos para almoçar e fui internada, finalmente às 14:30.
Piso 1, na entrada do internamento materno-fetal está o quarto 121. Toda a gente sabe que as senhoras do 121 estão ali para interromper a gravidez. Lá fiquei na cama 3. Fiz logo a medicação vaginal e esperei. Pelas 16h comecei cheia de contrações até que senti um “ploc”. Começou a escorrer água e chamei a enfermeira. Novo toque….deve ter sido uma ruptura alta da bolsa…colo com 1 dedo. 10 minutos depois já treinava a respiração porque as dores apertavam e abriu-se a torneira. Fiquei encharcada e a cama também. Lá veio a enfermeira que confirmou a ruptura total da bolsa e colo permeável a 2 dedos. Acabaram as dores. A partir daqui só senti moinhas perfeitamente suportáveis. Fui tomar um banho e voltei para a cama. Lanchei!
Às 17h vieram colocar um comprimido na bochecha e colocaram-me a soro!
Às 18:45 fui fazer xixi. Pus-me em posição e sinto sair qualquer coisa como coágulos. Baixo a cabeça e espreitei. Tinha o bebé pendurado e preso pelo cordão umbilical. Perfeitinho. Completamente formado! Desatei a gritar pela enfermeira. Apareceu uma auxiliar e disse-lhe: “Chame depressa uma enfermeira porque tenho o bebé aqui pendurado”. Enquanto oiço as enfermeiras a correr, sinto outra coisa a sair e o meu bebé caiu na sanita. Desatei a chorar! Uma enfermeira levou-me para o quarto, onde estava o meu marido que pensava que eu tinha caído! Quando se apercebeu, agarrou-se a mim e chorei, chorei muito.
A outra enfermeira apareceu de seguida. Disse que não tinha conseguido apanhar o feto porque caiu tão direitinho que foi embora!
Fez-me o toque e disse que, se eu não tivesse visto não acreditava que tivesse ali passado um feto, já que o colo estava praticamente fechado. Mandou-me para a sala de parto para que tentasse expulsar a placenta.
Vieram 2 médicas ver-me. Contei o que tinha acontecido e resolveram fazer ecografia. Primeiro pélvica, depois transvaginal. Concordaram que estava limpinha. Tinha apenas restos de coágulos. A placenta tinha mesmo saído depois do bebé. Eu bem senti! Por isso o bebé se desprendeu e caiu.
Aqui, já com o meu marido novamente ao meu lado, chorámos os dois. Como se tivéssemos a enterrar um pesadelo, um filho! Foi a primeira vez que chorámos os dois! Jurámos que o dia seguinte iria ser o recomeço! Prometeu-me que, no máximo, daqui a 4 meses estaríamos de novo nas consultas!
Vieram buscar-me e fui para o internamento. Desta vez para o piso 2 no mesmo internamento das puérperas de parto normal mas num quartinho lá ao fundo do corredor só com 2 camas!
Ouvi o choro dos bebés toda a noite. Cruzei-me com recém-mamãs na casa de banho e no corredor que olhavam para mim e deviam pensar: “trombuda! Ainda agora pariu e nem parece que está feliz!”. Possivelmente, há 3 anos, quando a Mafalda nasceu, cruzei-me com uma mulher nesta situação e pensei o mesmo. Se lá voltar, nunca mais olharei da mesma maneira para as mulheres que não aparentam estar felizes. Quando passar pelo quarto 121, vou olhar e pensar que pode estar ali alguém a sofrer, porque a maternidade, tanto se dá à luz filhos vivos como mortos!
No dia seguinte, o meu marido foi buscar-me às 14:30. De manhã fiz outra eco, no serviço de DPN porque, como o ecógrafo da sala de partos não presta, queriam confirmar o que é raríssimo de acontecer: a placenta soltar-se e sair espontaneamente com 16 semanas de gestação. Confirmou-se! Estava mesmo limpinha!
Saímos da maternidade com um pedido de consulta de genética.
Sair pela urgência, seguir os mesmos passos que uma recém mamã faz com o seu recém bebé e levar as mãos vazias e o coração partido dói muito. Cheguei cá fora, respirei fundo. O meu marido abraçou-me e voltou a prometer-me que estaríamos de volta em breve!
Hoje, dia 20, termino de escrever este diário. As lágrimas correm pela cara, mas sei que estou melhor que ontem. Sei que vou ultrapassar esta fase. Tenho amigas fantásticas que me lembram todos os dias que estão ao meu lado. Tenho dois filhos lindos que me fazem sorrir e que precisam de mim. Tenho um super-marido que não tem vergonha de me dizer o quanto gosta de mim, que o demonstra diariamente com palavras, com gestos, com carinhos! 
Vou trabalhar na próxima segunda –feira. Não quis gozar os 30 dias de licença, embora tenha a declaração da MAC para fazer o pedido. Estar em casa não me ajuda.
Fisicamente estou bem. O resto vai indo, um dia de cada vez, mas não estou mal!
Não voltarei a ser a mesma pessoa, nunca mais!

Sofia Lopes"

 

E é mesmo isto: "Nunca se volta a ser a mesma pessoa"

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publicado por Associação Projecto Artémis® às 15:26


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Espaço de partilha com objectivo de diminuir a falta de informação técnica e emocional a mulheres que vivenciam o luto da perda de um bebé ao longo da gravidez, bem como quebrar o Pacto de Silêncio resultante de todo esse processo de luto na Perda Gestacional.

Direcção A-PA

projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

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