27.12.17

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A mãe Lisa enviou-nos este email, e pediu que o partilhassemos.

Obrigada Mãe Lisa pelas palavras.

Um beijinho do tamanho do mundo

 

"Quero... em meu nome e do meu marido agradecer o trabalho que a vossa Associação faz.... É de facto muito importante para nós... pais de colo vazio... Sentirmos que alguém entende a nossa dor... que mais alguém para além de nós sabe que existiu uma vida e que se perdeu....

A minha gratidão a todos os que comentaram e que de alguma forma me confortaram com as suas histórias... o meu abraço apertadinho para todas as mães, que nesta altura... tal como eu... sofrem ....

Um beijinho muito grande a todas as mães que fazem parte desta dor...

Um BOM NATAL... E que o ano 2018 nos traga a Serenidade necessária para aceitar o que nunca vamos puder mudar...

 

Mãe Lisa"

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20.12.17

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Tenho escrito um pouco, porque percebi que me ajuda. Hoje escrevo porque estou de novo grávida, muito apreensiva e assustada. Partilho um pouco da minha história dos últimos meses com vocês. 
 

29 de Julho de 2017

Faz hoje uma semana que saí do hospital de mãos vazias, de útero vazio... pela terceira vez. Mas desta vez é muito pior. A dor é muito maior. Eu vi a minha menina, era linda, tão pequenina, tinha 16 semanas, e pode parecer absurdo, mas parecia o pai a dormir. Nunca mais vou esquecer aquele rostinho. Estou triste e desiludida comigo porque não a abracei e agora já é tarde, não sei onde ela está, dizem que o corpo foi para autópsia. Naquela hora não temos cabeça para pensar em nada. Sinto que arrancaram um pedaço de mim e sei que nunca mais serei a mesma pessoa. Havia uma alegria em mim que era expontânea e agora desapareceu. Tento agarrar-me ao que a minha vida tinha e ainda tem de positivo: a minha filha, o meu marido, o meu trabalho, o projeto da casa nova, porque a vida não parou. Mas tudo o que é bom, o que acontece de positivo tem um sabor estranho, amargo...

1 Setembro de 2017

As dores fortes e as hemorragias ainda não pararam. A ecografia revela restos placentários e é marcada uma curetagem. Entrei no hospital de manhã e esperei até às 15.00h para entrar para o bloco. Não me lembro de mais nada a partir do momento que me injectaram a anestesia. Por volta das 19.00h estou de regresso ao quarto. A um quarto exactamente igual ao que fiquei no dia em que morreu e nasceu o meu anjinho. Não consigo dormir ali. Começo a sentir pânico e não consigo estar deitada, sentada ou de pé! Uma sensação de claustrofobia insuportável... não me lembro de alguma vez me sentir tão agitada. Chamo a enfermeira e exijo sair naquele momento. Sei que é uma loucura e corro enormes riscos, é contra as indicações médicas, mas saio mesmo, acho que perceberam que não me iam segurar ali contra a minha vontade. Chamo o meu marido para me ir buscar. Assino um termo de responsabilidade e eram quase 21.00h quando saio e meia zombie desço a via rápida do hospital de Braga ao encontro do meu marido... preciso de andar e sentir o ar da rua. Que alívio !

Também o meu marido nesse dia tinha estado no hospital. Estranhas dores de cabeça têm-no incomodado, os TAC’s e ressonâncias não revelam nada, os médicos dizem que deve ser stress. Não sabia que lhe tinham dado tranquilizantes. Sente-se sonolento e sem condições para conduzir. Ligo para todos os hotéis de Braga que conheço e estão esgotados porque é período de férias. Vejo-me sem alternativas e decido conduzir até casa. Peço a Deus que me guie nesta hora, porque também me sinto em péssimas condições para levar o carro por estradas apertadas e cheias de curvas, mas felizmente chegamos a casa sem contratempos. 

 

8 de Setembro de 2017

Vamos para fora do País durante uma semana. A ideia é nestas mini-férias tentarmos recuperar um pouco deste último golpe e ganhar forças e ânimo para prosseguir. Acho que temos feito tudo o que é humanamente possível para fortalecer a nossa relação. É juntos que temos de continuar. Sei que não tivemos culpa, embora nos sintamos constantemente culpados. Assinar um documento que termina com a vida da nossa bebé porque tinha Trissomia 21 e complicações cardíacas é algo que nunca iremos aceitar. É uma pena muito pesada e uma dor angustiante. Ninguém devia ter que passar por isto.

 

19 de Setembro de 2017

Voltámos de férias, regressamos aos nossos trabalhos e retomamos o projecto da casa que estamos a reconstruir. É algo que nos une e motiva. Também nos distrai, tanta agitação e problemas para resolver acabam por nos manter anestesiados e assim adormecemos a dor. Preferimos andar cansados e com a mente ocupada. Evitamos pensar ou falar no assunto.

 

4 de novembro de 2017

Existe sempre algo que nos arranca deste entorpecimento e hoje foi o dia. 

Somos convidados para um jantar de colegas de faculdade do meu marido. Um casal tem uma menina de quase 2 anos e o outro casal um rapaz de 7, muito amorosos e lindíssimos.

O jantar decorre animado, fala-se do passado, dos professores, das profissões e depois começam os relatos sobre os filhos... as gravidezes, os partos, as experiências de cada um deles com os seus bebés, até à altura em que alguém diz para o meu marido: “... tens que tentar pá! Não demores muito que já estás mais que na idade... isto dá trabalho mas é maravilhoso. Se pudesse tinha 3 ou 4!”

Sinto que levei um murro no estômago... esforço-me por ficar normal, mas tenho vontade de gritar que também nós temos 3 filhos (o Afonso, o Henrique e a Maria) só que são anjos e nunca poderemos sentir essas maravilhas com eles! 

Mas controlo-me e penso que tenho que agir com naturalidade para ninguém perceber o desconforto. É a primeira vez que os vejo, não exponho os meus sentimentos assim e não vou expor o meu marido, que está apático e sem reação. Silêncio absoluto da nossa parte. Acho que não dissemos uma sílaba durante todo o tempo em que a conversa prossegue neste tema, até uma das senhoras dizer que conhece um casal com vários filhos que adoptou uma criança com síndrome de down. O outro casal elogia a coragem e um deles diz com frieza: “eu se soubesse que ia ter um filho assim deficiente acabava logo com tudo! Desculpem lá mas é o que sinto!”

Outro murro, levanto-me com a desculpa de ir à casa de banho, sei que vai ser difícil conter as lágrimas e grito em silêncio: QUE NUNCA SAIBAS, QUE NUNCA SINTAS!!! 

 

6 Dezembro de 2017

Já estamos na casa nova. Depois de tantos meses de obras e complicações, chegou finalmente o dia. Parece ironia, mas a menstruação está atrasada quase uma semana e eu costumo ser certinha como um relógio suíço. Faço um teste: resultado positivo. 

Não festejamos como era costume e não fazemos planos. Negámos a nós próprios o direito de sentir qualquer felicidade, qualquer emoção. Depois de tudo o que aconteceu sinto uma angústia enorme só de pensar que posso ter que passar por tudo outra vez. Na última consulta de planeamento familiar a médica disse exactamente isso: “Se voltarem a engravidar, têm que estar preparados para mais más notícias.” O pior ou o melhor (nem sei) é que agora estamos, e o medo, esta nuvem negra, não nos abandona. O quartinho de bebé que projectámos está ali, mesmo em frente ao meu. Enchi-o de tralhas, evito imaginá-lo decorado com um bercinho entre as duas janelas como era meu sonho.

Este nó no estômago não passa e agora só peço que Deus nos ajude e nos dê forças!

 

Susana 



 
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19.12.17

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Há casais que durante o ano iniciam o sonho da maternidade, que engravidam e vivem ansiosamente a chegada daquele filho. Mas nem sempre a gravidez corre da melhor forma e perdem aquele bebé. Como vivem estes casais o Natal, quando supostamente aquele Natal seria o primeiro com o seu filho, como vivem estes pais os Natais seguintes, sabendo que a cada ano que passa haveriam novas experiências, novas vivências como pais. E sabemos que um Natal com uma criança é sempre um Natal diferente.
É importante ser mais tolerante, lidar com aquilo que não deu certo e se superar, aceitar e aprender com o caminho que temos percorrido. Todos têm limitações e qualidades, é preciso focar naquilo que “têm de bom”, e aquilo que pode ser melhorado. É importante se valorizar e ver as próprias conquistas e superações..
Ter esperança que no ano seguinte será melhor traz motivação, traz a oportunidade de consertar os erros e reorganizar a vida de outra forma, mas lembre-se de não se cobrar demais, seja realista, um passo de cada vez.
Não existem pessoas e famílias perfeitas. Nem todos estão alegres nesta época do ano, a felicidade não é obrigatória
E há mesas que têm um lugar vazio… há mesas de Natal que têm um lugar de alguém que ninguém viu, mas que alguém amou… e ainda ama…. Há mesas de Natal que são feitas com colos vazios!
A equipa da Associação Projecto Artémis deseja a todos, em especial aos pais de colo vazio um Santo e Feliz Natal

Associação Projecto Artémis

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11.12.17

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"O meu nome é Lisa... tenho 38 anos... o Gustavo seria o meu 3º Filho.... e foi... Só não foi da forma prevista...

Não foi uma gravidez planeada,(usava DIU) contudo foi uma excelente notícia... IA SER MÃE DE NOVO!!!

Estava feliz... o meu marido estava feliz... Os manos estavam expectantes.... Perfeito a vinda do meu/nosso Gustavo....

Até ao dia em que tudo mudou... e iria mudar tudo para sempre....

Ao rastreio das 12 semanas, veio uma alteração no resultado para "uma possível trissomia".... Ecografias, amniocentese, mais analises... Afinal tudo ok!! Excelente ... Primeira barreira ultrapassada... afinal o meu bebé estava perfeito ....

Apartir das 20 semanas... começar a preparar o enxoval do meu anjo... Que delícia mesmo...

22 semanas..... Eco Morfológica... acompanhada da sogra e do meu canito (ansioso por ver o mano na barriga da mãe)... entro no consultório ás 14.30... saio ás 16.40 .... surgiram dúvidas... a Drª pediu-me que saísse e fosse comer algo doce e depois voltasse... desta feita sozinha... Lembro-me de olhar para a minha sogra... fez-se silêncio... senti um aperto... algo não estaria bem....

17h ... volto a entrar... sozinha.... eu e o meu medo.... o que teria o meu Gustavo???!!!! o meu filho???!!!

Para meu espanto, a Drª  chama a minha Obstetra que se encontrava de serviço... ( Drª Sonia Siopa a quem tanto devo e agradeço... fez tudo o que pode ....)

Começam a sussurrar... a minha médica aperta-me a mão... eu só chorava... em desespero pois já tinha percebido que o que quer fosse que se passasse era grave.... Perguntei : " Drª por favor diga-me o que tem o meu filho.....?? "

Lisa... ouço numa voz trémula, o meu nome.... " o bebé não tem a mãozinha direita... e tem um derrame à volta do coração.... Vou encaminhá-la de imediato para Coimbra... Maternidade Bissaya Barreto.... " o meu mundo ruiu... fiquei sem ar... sem chão... sem nada... Recordo-me que só conseguia pensar em fugir dali depressa... Eu não podia estar a ouvir aquilo... era tudo um equívoco.... o meu filho não tinha nada... não pode ser....

Quando saí a minha sogra percebeu que algo grave se passava.... eu só chorava.... tremia.... enfim.... não estava em mim....

Fui para Coimbra passados 5 dias....

Entretanto já com quase 24 semanas.... o meu filho mexia tanto... reagia tanto à mãe... ao pai....

Eu só pensava não pode ser... a Drª enganou-se....

Em Coimbra, no DPN (Diagnóstico Pré Natal), fui recebida por médicos excepcionais... e por uma Enfª em particular que trago sempre... para sempre no meu coração... Foi o meu anjo neste processo todo tão doloroso... Enfª Cristina.... A minha eterna gratidão....

Exames mais exames... Confirma-se que algo não estaria bem com o meu Gustavo....

Mas o quê???!!!

E aqui é que começa o pior dos pesadelos.... Ouvir falar na IMG....   Baseada em probabilidades... O tempo escasseia... Não há tempo para esperar muito mais... por mais resultados... mais exames....

A única certeza que havia era que de facto não tinha a mãozinha.... nada mais.... tudo o resto foram suposições... Fortes probabilidades... ok... reconheço... mas... contudo... probabilidades não são certezas...

E para mim a única certeza que tinha é que.... grávida de 26 semanas eu não queria ficar sem o meu filho... eu não queria ter que estar a passar tudo aquilo.

Entre dúvidas e pressões.... No dia 12/4/2017... às 17h .... Nasce o meu Gustavo.... Perdi o meu filho.....

Parto induzido.... de uma violência emocional sem igual.... Mas ressalvo... tive... e tenho... UM SUPER MARIDÃO!!!

Sempre comigo.... Sempre ao meu lado.... Assistiu a tudo....   sempre...

A ele a minha eterna gratidão... o meu eterno amor.....

Tratei de tudo com ele... A roupinha... O funeral.... tudo tudo....

Dia 14/4/2017... por volta do 12h... à porta do Cemitério.... vejo chegar o meu menino.... naquela caixinha branca... Meu Filho...

Que dor imensa... Anti Natura... completamente....

Volvidos quase 7 meses..... Tudo mudou... A dor acompanha-me ... Não consigo fazer o meu luto... Estou a destruir a minha relação... com o meu marido... com os filhos que tenho... mas acima de tudo comigo....

Culpo-me porque assinei aqueles papéis... culpo-me por ter aberto mão do meu filho... não ter lutado mais... DESISTI!!!!

Todos os dias.... A ti meu amor.... A MÃE PEDE PERDÃO!!!

Amo te com toda a minha força... mas não te amei o suficiente para não te perder....

Perdoa-me meu filho....

 

Mãe Lisa"

link do postPor projectoartemis, às 11:07  ver comentários (1) comentar

6.12.17

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Diariamente ouvimos falar na humanização dos serviços de saúde, contudo e infelizmente não é isso que se verifica.

Não é suposto haverem juízos de valor por parte de qualquer técnico ou médico na área da saúde, não é suposto os utentes sairem de uma consulta a sentirem-se culpados, criticados ou humilhados.

Este é apenas um dos muitos relatos que nos chegam diariamente.

"Dia 23 de Novembro 2017

1ª consulta de PMA (Procriação Medicamente Assistida)– MAC (Maternidade Alfredo da Costa)

- Marcada para as 10:30, por questões de trânsito e estacionamento só conseguimos entrar na MAC pelas 10:40.

- O Serviço de PMA encontra-se em obras, pelo telefone quando marcaram a consulta, não nos informaram, perdemos ainda mais tempo, admissão no rés-do-chão, a porta está fechada só tem um papel à porta a informar que ali são as instalações provisórias de PMA. Não há sistemas de senhas, é um local de passagem, não há bancos de espera, não se percebe quem está para PMA ou para outra coisa qualquer.

- A porta é de molas abre para os 2 lados, de forma a perceber se estava no sítio correto, bati e espreitei, logo uma administrativa “tem que aguardar lá fora e esperar a vez”… Voltei para fora, qual vez? Não há senhas… Não há filas… Só pessoas espalhadas pelo átrio… fiquei a observar, qual experimento social… Tive que andar a perguntar às pessoas que estavam pelo átrio se estavam para o mesmo.

- Chegou a minha vez, e iniciei o processo com a administrativa. Perguntou pelo meu marido, disse-lhe que me tinha deixado, uma vez que já estávamos atrasados e assim eu poderia adiantar a parte da admissão… “trouxe as copias dos cartões de cidadão?”, não me tinham informado que era para levar… mas prontamente a senhora se ofereceu para fotocopiar e continuamos com a parte mais burocrática, praticamente com a senhora a clicar no teclado do computador e eu a olhar, mas até aqui tudo “normal” passados 2 minutos, levanta os olhos do teclado e exclama com arrogância “Mas o marido ainda está a estacionar?”, eu nem sabia o que havia de responder… tinham passado 2 minutos que estava sentada à frente dela, não mexi no telemóvel sequer, como sabia eu se ainda estava a estacionar? E mesmo que já tivesse estacionado e mesmo que já estivesse no átrio, como sabia ele onde eu estava e se podia entrar? Tal como eu duvidei quando cheguei?... Mandou-me sair e quando o marido chegasse para informar… Entretanto ele chegou e tive que aguardar que as pessoas que entretanto estavam a ser atendidas que saíssem para voltar a entrar e foi então que uma senhora auxiliar muito simpática (por incrível que pareça foi das profissionais mais competentes (dentro da sua competência) que encontrei nesse dia) nos acompanhou ao primeiro andar, onde efetivamente seria a tão ansiada consulta. Quando chegamos o corredor estava praticamente cheio de casais. Fomos o último casal a ser atendido (de todos os que vimos à espera) posso dizer que saímos da MAC quase às duas da tarde… Mas não nos vimos no direito de achar estranho porque efetivamente chegamos ligeiramente atrasados e ficamos para o fim da lista.

- Quando a doutora nos chamou, não gostei da postura dela, sempre a murmurar reclamações face ao funcionamento da instituição (penso que se estaria a desculpar de alguma forma a sua má disposição, ou justificar os atrasos), postura que achamos muito pouco profissional e ética, em momento algum nos pediu desculpa pelo funcionamento, pelo atraso, até se podia “apoiar” na desculpa das obras, mas nem isso.

Mas até aqui, apesar de não gostarmos de algumas coisas, estamos no SNS, um serviço tendencionalmente gratuito, e que todo o cidadão sabe que de alguma forma alguns pormenores fogem ao controlo e à decisão dos profissionais que todos os dias lá trabalham… Mas o pior estava para vir, obras e mau funcionamento do sistema à parte, a senhora doutora poderia balancear todos esses pontos negativos vividos até ao momento e terminar a consulta com chave de ouro.

Consultas de PMA, na minha perspetiva, são consultas que de alguma forma requerem alguma sensibilidade dos profissionais que lá trabalham, muitas vezes os casais chegam fragilizados, ansiosos, com uma mão cheia de esperanças.

Resumo da consulta: colheita de dados, aparentemente para uma avaliação inicial/construção de história reprodutiva… Parecia que estávamos em frente a uma máquina, “profissão, “idade” (quando dissemos as idades 30 e 31 fez-nos um olhar fulminante, presumo que nos achasse novos, não sei, para mim a linguagem corporal e facial disse tudo), “altura”, “peso”, “menstruação” (menstruação? eu sabia o que ela queria perguntar, era a idade com que tive a primeira menstruação, mas não perguntou, fazia só metade das perguntas… e ia respondendo e os nervos a começar a crescer dentro de mim), “já esteve grávida”, lá lhe respondi que sim, mas que tinha perdido, ela a escrever “ah, aborto espontâneo” e eu “não aborto retido” (não perguntou se essa gravidez tinha sido com o mesmo parceiro que tenho agora (podia não ser…).

Perguntou qual o nosso grupo sanguíneo, eu já estava nervosa, estava cansada porque tinha trabalhado no turno da noite, tive um lapso de memória, mas respondi O+, mas tenho aqui as análises que posso consultar… “Enfermeira e não sabe o grupo sanguíneo”? e com aquele olhar acusatório… Enfim…

Perguntou se tomávamos alguma medicação, eu disse que não, mas que o meu marido sim (Isotretioína – medicação para o acne)… Ela parou tudo e com ar arrogante e bruto e com um tom de voz acusatório disse que essa medicação causava aborto! “Então abortaram estão a tentar engravidar e tomam medicação dessa???” Senti-me culpada de uma coisa que não tenho culpa… Nesse momento ela pareceu que não quis ouvir mais nada do que tínhamos para dizer, explicamos que tínhamos falado com o dermatologista sobre esse assunto, ele disse que era seguro que a afetar poderia afetar o feto e o feto só estaria dentro da mulher, só a mulher não poderia tomar esse medicamento e que a bula também o confirmava… Na bula do medicamento, apenas existem advertências ao consumo por parte de mulheres e nunca de homens, e o meu marido também toma a dosagem mais reduzida possível. Ela não quis ouvir mais nada, não quis saber de dosagens nem a opinião do colega dela… e com ar arrogante diz que o medicamento afeta gametas e que o homem tinha gametas, eu disse-lhe que não, que afetava o feto e não gametas… O que eu fui fazer! “Atirou-se” a mim mais uma vez que como enfermeira deveria “saber” mais, e que nós fazíamos o que quiséssemos, mas que se ela pessoalmente estivesse na nossa situação não tomava medicação nenhuma, até porque “essa” medicação não era “importante” no sentido de ser vital presumo…

Não estou contra a opinião dela e conhecimento, estou contra a postura e forma como falou, senti-me ofendida, diminuída… Explicou de forma automática uma vez mais que tendo em conta os dados seríamos candidatos a inseminação artificial, e isso seria na melhor das hipóteses daqui a 6 meses, se não corresse bem seríamos propostos para FIV e a lista de espera para FIV era de no mínimo 1 ano, segundo ela esta informação era para nós saber com o que contar, deu-nos a prescrição para análises e espermograma (porque o espermograma que levamos era do laboratório do H. da Luz e ela não gostava dos espermogramas do H. Luz…) e levantou-se disse até à próxima consulta)… Mais nada…

Saímos… O meu marido foi a uma outra sala porque tinha um colega de trabalho a realizar uma manutenção a um equipamento (o meu marido é técnico de electromedicina, numa multinacional independente a instituições hospitalares, só fazem prestações de serviços…), e eu fiquei à espera, um pouco desviada já do gabinete médico… Entretanto a médica passa e viu-me ao longe e perguntou o que estava ali a fazer, porque não estava na consulta de enfermagem! Mas com um tom e um ar que eu era completamente irresponsável… Consulta de enfermagem? Qual consulta de enfermagem? Ninguém me disse que tinha mais alguma coisa para fazer… Fui à tal sala em que o meu marido estava e perguntei-lhe se a medica nos tinha dito para ir ter com a enfermeira (podia me ter escapado por algum motivo), ele também não ouviu nada nem sabia de nada… Nós é que teríamos que adivinhar (acredito que outros casais já saibam, mas nós foi a primeira vez…)… Estava com tantos mas tantos nervos, que não consegui falar na consulta de enfermagem, comecei logo a chorar compulsivamente, porque me tinha sentido verdadeiramente ofendida e diminuída… Aí a senhora enfermeira fechou a porta (sim, estava aberta…) e tentou acalmar-me e tentar perceber no que podia ajudar… Aparentemente entendeu e tentou amenizar a situação, mas ao mesmo tempo, quando lhe falei em apresentar queixa ela de alguma forma “incentivou” a que o fizesse, porque normalmente as pessoas que apresentam queixa não sabem usar as palavras e nós como casal “diferenciado” poderíamos fazer-nos ouvir de outra forma e a nossa queixa poder ajudar casais no futuro que passam pelo mesmo… E deu-nos o nome da médica, porque ela não se tinha apresentado na nossa consulta…

Resumo de sentimentos da 1ª consulta de PMA – MAC ofendida, diminuída, insignificante e humilhada, pela forma fria, desumana e mecanizada com que fomos atendidos."

Por motivos de proteção desta utente não a iremos identificar.

link do postPor projectoartemis, às 12:02  comentar

5.12.17

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 Aqui fica o link do programa "Juntos à tarde" na SIC onde se conversou sem tabus de perda gestacional

 

http://sic.sapo.pt/Programas/juntos-a-tarde/a-conversa/2017-11-30-A-Conversa-Sem-Tabus---Perda-Gestacional 

link do postPor projectoartemis, às 11:27  comentar

 
Espaço de partilha com objectivo de diminuir a falta de informação técnica e emocional a mulheres que vivenciam o luto da perda de um bebé ao longo da gravidez, bem como quebrar o Pacto de Silêncio resultante de todo esse processo de luto na Perda Gestacional.
Envie a sua questão
Este consultório online é um espaço onde pode colocar as suas dúvidas no âmbito da Perda Gestacional. Este Consultório tem um carácter informativo e o acompanhamento médico especializado por parte dos leitores não deve ser descuidado.

E-mail: projectoartemis@sapo.pt

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Direcção APA
projectoartemis Sandra Cunha, Psicóloga desde 2005 da Associação Projecto Artémis, tem vindo a desenvolver o seu trabalho desde essa data na área da Perda Gestacional. Em paralelo, acompanhou Manuela Pontes na Direcção da Artémis como Vice Presidente. Desde Junho de 2011 está como Presidente da Associação Projecto Artémis, procurando quebrar o silêncio, alienado o seu conhecimento técnico com o da realidade da perda de um filho. Perdeu um bebé em 2007, após 2 anos de trabalho como psicóloga da Artémis, o que lhe permitiu reunir à técnica o conhecimento árdua de ter vivido na pele a perda de um filho.

Contacto:
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Orgão Sociais
Direcção:
Presidente - Sandra Cunha
Vice Presidente - Patrícia Vilas Boas
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Assembleia Geral:
Presidente - Anabela Costa
1ª Secretária - Vanessa Mack
2ª Secretária - Sílvia Melo
Conselho Fiscal:
Presidente - Ricardo Fortuna
Vogal - Mónica Cunha
Vogal - Manuel Vilas Boas
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